quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Paul II - cap 18


Capítulo 18

À tarde, o céu estava bonito. Azul-claro, com poucas nuvens. Resolvi sair um pouco para tomar ar puro.
Fui até um parque que ficava perto da minha casa. Sentei-me na grama e fiquei observando o céu enquanto pensava sobre as pessoas que me eram próximas: Minha mãe, que foi provavelmente a melhor pessoa que conheci, e que acabou suicidando por culpa minha e do meu pai. Luna, que eu "amei", mas matei por ter a alma podre. Sally, que não era tão ruim quanto aparentava. E meu pai, que também era melhor do que imaginei, mas continuava sendo um desgraçado.
Enquanto eu pensava, o sol ia se pondo. Perguntei-me o que faria da minha vida a partir dali. Formar no colégio. Entrar em uma universidade. Arranjar um emprego estável... Depois, quem sabe, me casar com uma mulher que tivesse a alma pura. E cuidar bem dela, para que não terminasse como a minha mãe...
E, de repente, vi uma luz forte ao longe. E a luz estava se aproximando de mim, cada vez mais.
Quando chegou mais perto, percebi que era uma garota. Mas não uma garota qualquer. Tinha cabelos ruivos e espessos. E seus olhos eram conhecidos, mesmo que não estivessem mais tão selvagens como antes, e sim desesperados.
Era Sally. Mas tinha algo diferente nela. Usava um vestido branco que estava sujo e rasgado. A luz forte vinha de uma auréola brilhante em sua cabeça. E, atrás de suas costas, havia um par de asas enormes, brancas e maltratadas. Ela estava andando na minha direção com os pés descalços, e arrastava algo atrás de si.
Olhei de volta para seu rosto, e vi algo que nunca imaginei ver: Sally chorava.
- Por que não disse que me ama? - perguntou ela, com uma voz que sussurrava ao vento de uma maneira irreal.
Ela estava agora a poucos metros de mim. A coisa que ela arrastava fazia a grama farfalhar por onde passava.
- Sally... - chamei, sem acreditar que ela estava ali.
- Por que não disse que me ama? - perguntou ela de novo, mais alto.
A resposta para mim era óbvia, e por isso não respondi. Eu simplesmente não amava, e mentir seria inútil.
Sally parou na minha frente, e mais lágrimas escorreram em seu rosto.
- POR QUE NÃO DISSE QUE ME AMA? - ela gritou, e pude ver o que ela estava carregando quando o levantou: um machado.
- S-Sally - gaguejei, me arrastando para trás. Mas Sally desceu o machado em meu ombro.
Soltei um grito. Sally continuou me acertando com o machado, berrando "Por que não disse que me ama?" repetidamente. A dor era aguda e insuportável a cada machadada que ela dava. Senti o sangue quente vazando em excesso do meu próprio corpo. Nunca havia visto tanto do meu sangue antes.
Não tentei lutar, porque não adiantaria. Eu estava marcado para morrer aquela morte lenta e dolorosa, e sei que mereci aquilo.
O rosto de Sally estava inundado de lágrimas, misturadas com o sangue que espirrava. Por fim, ela olhou para mim e hesitou... E, depois de sua pausa, como que para cessar meu sofrimento, desceu o machado em meu crânio com toda sua força. Então, tudo sumiu.

***

E é aqui que encerro esta história, que pode ou não lhe ser útil. Perdoe-me por te fazer ler algo tão horrível, leitor, mas sei que, se eu avisasse no início, você não iria querer ler. Mas eu avisei, desde o começo, que sou perigoso.
De certo modo, nestas memórias póstumas, não sou um defunto autor, mas um autor defunto*, já que eu escrevia poemas em vida. Infelizmente você não poderá lê-los, pois nem sei o que foi feito do meu caderno.
Não vou narrar muito sobre o inferno, mas peço que não tenha medo, leitor. Aqui não é muito diferente de onde você mora. Apenas adicione chifres e uma cauda pontuda em todos os habitantes e aumente o número de monstruosidades que já ocorrem no mundo humano. Ah, é um pouco mais quente, também.
Desejo a você sorte na sua vida efêmera, e que morra de uma maneira agradável, diferente da minha.
Espero-te no inferno.



*Referência à obra "Memórias de Brás Cubas", de Machado de Assis. Brás Cubas diz, no início do livro, que não é um defunto autor, mas um autor defunto.



E acabou! Agora é o final mesmo. Para quem acompanhou Paul, espero que tenham gostado!
É sempre meio triste terminar um livro, mas...

3 comentários:

MaNa disse...

Acabou mesmo? Ainda não acredito. Muito triste, muito triste... Mas que outro final poderia ter? Gostei muito da história.

Bjs

MaNa disse...

Oi, faz séculos que não passo por aqui. Me peguei com saudades dos seus textos! Volta a escrever Bela! Eu pequei parando de fazer o meu....
Bom, eu era do blog Jornal da MaNa. Parei de escrever lá e de ler os blogs que gostava de acompanhar já a algum tempo. Pois é. Mas agora voltei! E quero ficar! Criei esse outro blog a um tempão, contudo não escrevia nele com frequência, nem divulgava. Resolvi começar a fazer isso agora!
O link é:
www.escrevendoparaser.blogspot.com
Agradeceria imensamente se me seguisse de volta como nos velhos tempos e pudéssemos refazer nossa parceria.

Bjs
P.s: Volte a escrever.

MaNa disse...

Desculpa demorar a responder!! Por favor, vamos retornar essa parceria sim!

Só você falar, estais escrevendo aonde?

Bjs

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