quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Paul II - cap 17

Capítulo 17

Dois dias depois, eu caminhava sozinho pela cidade, arrastando minha mala. Como Sally morreu, o pai dela não quis mais me manter de graça no hotel. Levava comigo o dinheiro que eu e Sally ganhamos trabalhando. Procurei um apartamento barato para alugar durante minha caminhada, mas os mais baratos, mesmo que eu pudesse pagar naquele momento, ficariam impossíveis de manter mais tarde, já que Sally não trabalharia mais comigo para ajudar nas despesas.
Aquela noite, dormi na rua. Não me importei muito, pois tinha um cobertor e aquela pilha de jornais estava confortável o suficiente. O problema maior foi que, na manhã seguinte, todo o dinheiro havia sumido.
Depois de me punir, metendo a testa na parede até estar a ponto de rachar, por não ter escondido o dinheiro na cueca ou em qualquer outro lugar mais seguro, continuei a caminhar sem rumo.
Quando me dei conta, estava em um bairro um tanto quanto conhecido. Era o bairro silencioso e cinzento onde cresci. E lá estava minha antiga e sombria casa.
A porta se abriu, e espiei, curioso para ver que tipo de gente estava morando lá. E dei de cara com meu pai.
Ele sinalizou com o dedo para que eu entrasse. Como não tinha mais para onde ir, o obedeci.
- O que está fazendo aqui? - perguntei, enquanto ele trancava a porta.
- Depois que você fugiu, vendi a outra casa e comprei esta de volta. A moça que a havia comprado estava tentando se livrar dela como uma louca, dizendo que viu o diabo na gaveta de um quarto. Bom, porque eu prefiro esta casa à outra.
Eu sorri. Jonhson estava bem, afinal. Resolvi visitá-lo mais tarde.
- Sente-se - convidou meu pai - Vou preparar um café.
Sentei-me, olhando em volta. Percebi o quanto eu estava com saudades daquele lugar. As paredes de madeira, os móveis antigos. O alçapão que dava para o porão.
- Eu trouxe de volta o baú de ossos, se quer saber - disse meu pai - Mas me diga: o que você estava fazendo todo detonado na rua, arrastando uma mala? Ainda por cima, com o cabelo desarrumado?
Resolvi ignorar a última parte.
- Engravidei Sally. Juntamos dinheiro para alugar um apartamento. Sally foi assassinada. Fui expulso do hotel do pai dela. Dormi na rua. Roubaram meu dinheiro - resumi.
- Foi assassinada? Por quem?
- Sei lá o nome dele. Era um humano nojento e desprezível.
- Um humano, hum?
Ficamos calados.
- Pai... - chamei, com nojo, pois não o considerava muito como um pai - Por que eu matei Luna?
- Bem... - Henry suspirou - Eu já deveria ter te contado isso antes, mas tive medo que se sentisse obrigado a cumprir sua tarefa.
- Tarefa?
- Vou te contar uma história... Há alguns séculos, um grupo de demônios recolhedores foram mandados do inferno para a terra. Demônios recolhedores são aqueles que recolhem almas pecaminosas para o inferno. Estes demônios se espalharam pelos continentes, um para cada... E se reproduziram com humanos.
Ele tomou um gole de seu café e continuou.
- Os cientistas diriam que os filhos de demônios com humanos são híbridos. Mas, mesmo assim, são seres extremamente compatíveis. E, por isso, seus filhotes são férteis por 10 gerações, com o sangue de demônio cada ver mais fraco em cada uma. E você, Paul, é a nona geração.
Eu o encarei, incrédulo.
- Você está dizendo que eu tenho sangue de demônio?
- Muito fraco, mas tem. Você ainda guarda grande parte da força de um sangue-puro, e cumpre, por instinto, seu dever. Mas perdeu qualquer poder místico ou aparência física de um demônio. Eu tenho apenas as orelhas levemente pontudas, mas é quase imperceptível. Minha bisavó, no entanto, tinha chifres.
- Sobre eu cumprir instintivamente meu dever... O que quer dizer com isso?
- Seu dever de descendente de demônio recolhedor é, como eu disse, colher almas podres. Me diga, Paul, quem você já matou?
Pensei por um instante e citei: O mendigo que assediou minha mãe, os caras que atacaram Sally... Mas também teve aquela garota da minha escola... E Luna.
- A garota, pelo que me descreve, tinha inveja de Luna. Provavelmente, a alma dela estava corroída de inveja, e por isso humilhava as outras meninas - disse Henry - Mas... O que sabe me dizer sobre Luna, Paul?
- Bem, ela era doce, delicada, ingênua, pura...
Meu pai começou a rir como um maníaco.
- Não, Paul. A Luna era pecaminosa como todos os outros que você matou. Ela mereceu morrer, como todos eles.
Ao ouvir isso, avancei sobre ele, agarrando-o pela gola da blusa. Henry nem piscou.
- COMO OUSA? - gritei.
- Estou apenas dizendo o que percebi, do pouco que observei dela. Nunca vi garota mais atirada. Ela só pensava numa coisa, Paul.
- Que coisa?
- O que aconteceu naquele dia? Digo, quando a matou.
- Eu tinha contado que minha mãe morreu.
- E o que ela fez?
- Ela disse que sentia muito e me trancou no quarto dela, querendo me dar um presente.
Meu pai estava visivelmente segurando o riso.
- Presente? Que presente? - perguntou.
- Sei lá... Ela... Começou a me beijar...
- É pior do que imaginei - ele disse, rindo - Parece que ela estava planejando isso desde o começo. Só quis uma coisa com você desde que o conheceu. Estava tão planejado que nem uma tragédia como a morte da sua mãe a abalou.
- Você quer dizer... - eu estava confuso - Mas pensei que ela nunca teve nenhum namorado sério.
- Não sei se é verdade, mas, se for, não importa. Ela tinha o corpo puro, mas a alma consumida pela luxúria. O importante é a alma, Paul.
Ponderei sobre aquilo por alguns instantes.
- Quer dizer que... Ela nunca me amou?
- Não sei. Talvez tenha amado, mas parece que ela já te queria fisicamente antes de te querer emocionalmente. Ela correu atrás de você com esse objetivo. O amor veio com a convivência. Mas, se ela não tivesse te conhecido, iria querer qualquer outro cara fisicamente atraente na sua sala.
- Mas... E Sally? Por que não a matei? Nunca nem tive vontade de matá-la, e ela era psicopata, além de ter feito essas coisas que a Luna queria comigo.
- Mas ela não te quis com esse propósito. Além disso, como você mesmo acabou de dizer, ela era psicopata, ou seja, era doente mental. Isso não conta como um pecado. Você não tinha motivos para matá-la. O que mais pode me dizer sobre ela?
- Bem... Os pais dela são uns babacas. Eles não conversam, não se preocupam nem se importam com ela. Nem mesmo quando descobriram que estava grávida.
- Hmm... Então ela não deve ser psicopata, e sim sociopata. Conviver com pais assim provavelmente ajudou a desenvolver a doença. Acho, Paul, que tudo o que ela queria, ao andar com você, era um pouco de atenção de alguém que a entende.
Pensei sobre o assunto. Era por isso que ela havia me perguntado se eu a amava, quando estava para morrer. Senti pena de Sally.
- E pai... Por que você traiu minha mãe? - perguntei.
- Bem... Eu era jovem e estúpido. Por causa do meu instinto, que é mais forte em mim do que em você, me sentia atraído exatamente por quem tinha a alma podre. E sua mãe, cujo casamento comigo foi arranjado, era pura como uma nuvem. Conheci aquela mulher quando sua mãe ainda era minha noiva. A mulher, que, se me lembro bem, se chamava Elaine, só queria ser rica no futuro. Tenho certeza que, quando bateu lá na outra casa, só veio atrás do dinheiro. Com certeza não estava tentando defender honra, respeito ou qualquer coisa digna. Avarenta como o Tio Patinhas, ela. Por isso a matei. Já a filha dela, não sei se pecava. Essa eu matei porque tenho um péssimo caráter, mesmo.
Ele suspirou.
- Eu amei Elaine, mas era uma paixão falsa, movida pelo instinto. É uma emoção que surge para nos manter próximos do pecador até que colhamos sua alma. Inclusive, Paul, sua paixão pela Luna pode ter sido exatamente isso.
Henry tomou outro gole de café, mas torceu os lábios.
- Está frio.
E, enquanto ele se preocupava com a temperatura do café, eu tentava digerir tudo aquilo. Eu, um descendente de demônio. Era, ao mesmo tempo, óbvio e impossível. Afinal, por mais absurdo que seja, minha vida inteira foi tão esquisita que nada me surpreendia.
Luna, que eu acreditava ser pura e doce, era uma tarada que me manipulou como um cachorrinho apenas para satisfazer seus desejos carnais. E ela era tão egoísta que nem a morte de minha mãe atrapalharia seus planos, se eu não a tivesse matado. Enquanto isso, sofri uma paixão falsa por ela, uma mentira que me induzia a colher sua alma.
E Sally, que eu sempre pensei que fosse uma pessoa cruel, não tinha nenhum pecado. Até ela mesma acreditava ser uma pessoa horrível, mas não era.
- Vou pro quarto - avisei - Preciso pensar.
- Claro. Vai te fazer bem.
Subi para o meu antigo quarto e abri a gaveta onde meu diabrete sempre ficava. Ele estava lá, dormindo. Eu sabia que não estava morto porque roncava como um liquidificador.
Deitei-me na cama e cochilei.

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