terça-feira, 16 de outubro de 2012

Paul II - cap 16


Capítulo 16

- Está se sentindo perseguido? - perguntou Sally, encostada no carro, em uma noite na qual resolvemos passear nele, já que Sally visitou a casa dos pais apenas com o objetivo de surrupiá-lo.
- Um pouco - respondi, olhando em volta. Ouvi risos. Duas sombras humanas projetaram-se na parede iluminada pelo poste.
- Ora, ora - ouvimos uma voz de homem - Quem diria... A ruivinha e o monstro. Finalmente encontramos vocês.
Dois rapazes foram iluminados. Pude reconhecê-los: eram os que tinham conseguido fugir naquela noite.
Era pior do que eu e Sally imaginávamos. Ao invés de chamar a polícia, eles resolveram se vingar pessoalmente. Claro que isso facilitava meu trabalho por serem apenas dois, mas o ódio os deixava mais fortes e determinados do que qualquer policial.
- Estão prontos para morrer? - perguntei, estralando os dedos em punho.
- Não, não - o outro rapaz disse - Vocês é que vão morrer hoje - e sacou um revólver do bolso, disparando contra a lâmpada do poste. A rua ficou escura.
Sally sacou a própria arma.
- Paul, você dirige - ela disse, e eu entrei no carro.
Sally entrou logo depois, e eu arranquei. Comecei a dirigir o mais rápido possível, com a precisão de uma barata tonta.
Os caras começaram a correr como uns loucos atrás do carro, e atiraram várias vezes na nossa direção. Mas, como eu era incapaz de manter o carro em linha reta, nenhum tiro nos atingiu.
Sally atirou pela janela, também errando em quase todas as tentativas. Mas acertou, em um momento, o joelho de um dos caras.
Quando eu olhei pelo retrovisor para ver o que Sally atingiu, batemos em um poste. O carro morreu completamente.
- Você está bem? - perguntei para Sally.
Sally, suada, confirmou com um aceno de cabeça. Por sorte, o poste atingiu o carro exatamente no meio, e nenhum de nós se machucou.
Descemos do carro. Um dos caras ajudava o outro, que estava quase se arrastando, a andar.
Sally atirou mais uma vez. Nesta, ela atingiu o rapaz que não estava ferido no peito. Este soltou um gemido e caiu.
O outro tinha puro ódio nos olhos. Ódio e agonia, pela dor que sentia na perna.
- Desgraçados... DESGRAÇADOS - ele berrou, cuspindo.
E continuou mancando na nossa direção. Sally tentou atirar nele, mas descobriu que as balas acabaram. Ele apontou a arma para Sally.
- Não ouse atirar - eu disse - Se você atirar, eu te ataco.
- Já estou ferrado, de qualquer jeito - ele disse, rindo.
E atirou. A bala seguiu seu rumo e atravessou a barriga de Sally.
Sally caiu de joelhos. Mais um tiro. Outro furo na barriga. Sally pôs as mãos no chão. Seus braços tremiam. Ela se deitou de barriga para baixo.
- Bastardo - murmurei. Agarrei uma lata de lixo e a lancei, com toda minha força, na cabeça do sujeito, que caiu. Desmaiado ou morto, não me importava. Ajoelhei-me ao lado de Sally.
Ela estava em uma enorme poça de seu próprio sangue. Virei-a para poder ver seu rosto.
- Paul... - ela estava pálida e respirava com dificuldade.
- Me perdoe por não conseguir proteger você - pedi.
Sally riu.
- Tanto faz, Paul. Ninguém vai se importar... - e encarou o céu, meio vesga - Paul... Você me ama?
Eu a encarei por um tempo.
- Não vou mentir para você, Sally - disse, enfim - Não te amo.
Ela riu mais ainda.
- É o que pensei... Ninguém nunca... Disse que me ama... Nunca... Nem mesmo... Meus pais...
Sally tossiu sangue.
- Que morte patética - ela disse, com a voz fraca.
E foram suas últimas palavras.
Observei seu rosto sem vida. Muita gente diz que a morte é pacífica, assim como adormecer. Olhando para Sally, era difícil acreditar nisso. Seus olhos vazios e arregalados diziam desespero, e sua expressão, inquietude.
Acariciei seu rosto frio de suor. Depois peguei o celular que ela guardava no bolso. Liguei para a polícia.
- Tem três corpos aqui - contei, e forneci o endereço. Desliguei sem mais nenhuma palavra.
Levantei-me e passei ao lado dos dois caras. O que levou o tiro no peito estava perfeitamente morto. O outro acordou, tonto e gemendo, do desmaio.
Encontrei uma garrafa no chão, e a estourei contra a testa dele. Peguei um caco grande e pontiagudo de vidro e finquei no coração do rapaz. Então fui embora.
Aquela noite, escrevi um poema sobre Sally.

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