quarta-feira, 17 de outubro de 2012 3 comentários

Paul II - cap 18


Capítulo 18

À tarde, o céu estava bonito. Azul-claro, com poucas nuvens. Resolvi sair um pouco para tomar ar puro.
Fui até um parque que ficava perto da minha casa. Sentei-me na grama e fiquei observando o céu enquanto pensava sobre as pessoas que me eram próximas: Minha mãe, que foi provavelmente a melhor pessoa que conheci, e que acabou suicidando por culpa minha e do meu pai. Luna, que eu "amei", mas matei por ter a alma podre. Sally, que não era tão ruim quanto aparentava. E meu pai, que também era melhor do que imaginei, mas continuava sendo um desgraçado.
Enquanto eu pensava, o sol ia se pondo. Perguntei-me o que faria da minha vida a partir dali. Formar no colégio. Entrar em uma universidade. Arranjar um emprego estável... Depois, quem sabe, me casar com uma mulher que tivesse a alma pura. E cuidar bem dela, para que não terminasse como a minha mãe...
E, de repente, vi uma luz forte ao longe. E a luz estava se aproximando de mim, cada vez mais.
Quando chegou mais perto, percebi que era uma garota. Mas não uma garota qualquer. Tinha cabelos ruivos e espessos. E seus olhos eram conhecidos, mesmo que não estivessem mais tão selvagens como antes, e sim desesperados.
Era Sally. Mas tinha algo diferente nela. Usava um vestido branco que estava sujo e rasgado. A luz forte vinha de uma auréola brilhante em sua cabeça. E, atrás de suas costas, havia um par de asas enormes, brancas e maltratadas. Ela estava andando na minha direção com os pés descalços, e arrastava algo atrás de si.
Olhei de volta para seu rosto, e vi algo que nunca imaginei ver: Sally chorava.
- Por que não disse que me ama? - perguntou ela, com uma voz que sussurrava ao vento de uma maneira irreal.
Ela estava agora a poucos metros de mim. A coisa que ela arrastava fazia a grama farfalhar por onde passava.
- Sally... - chamei, sem acreditar que ela estava ali.
- Por que não disse que me ama? - perguntou ela de novo, mais alto.
A resposta para mim era óbvia, e por isso não respondi. Eu simplesmente não amava, e mentir seria inútil.
Sally parou na minha frente, e mais lágrimas escorreram em seu rosto.
- POR QUE NÃO DISSE QUE ME AMA? - ela gritou, e pude ver o que ela estava carregando quando o levantou: um machado.
- S-Sally - gaguejei, me arrastando para trás. Mas Sally desceu o machado em meu ombro.
Soltei um grito. Sally continuou me acertando com o machado, berrando "Por que não disse que me ama?" repetidamente. A dor era aguda e insuportável a cada machadada que ela dava. Senti o sangue quente vazando em excesso do meu próprio corpo. Nunca havia visto tanto do meu sangue antes.
Não tentei lutar, porque não adiantaria. Eu estava marcado para morrer aquela morte lenta e dolorosa, e sei que mereci aquilo.
O rosto de Sally estava inundado de lágrimas, misturadas com o sangue que espirrava. Por fim, ela olhou para mim e hesitou... E, depois de sua pausa, como que para cessar meu sofrimento, desceu o machado em meu crânio com toda sua força. Então, tudo sumiu.

***

E é aqui que encerro esta história, que pode ou não lhe ser útil. Perdoe-me por te fazer ler algo tão horrível, leitor, mas sei que, se eu avisasse no início, você não iria querer ler. Mas eu avisei, desde o começo, que sou perigoso.
De certo modo, nestas memórias póstumas, não sou um defunto autor, mas um autor defunto*, já que eu escrevia poemas em vida. Infelizmente você não poderá lê-los, pois nem sei o que foi feito do meu caderno.
Não vou narrar muito sobre o inferno, mas peço que não tenha medo, leitor. Aqui não é muito diferente de onde você mora. Apenas adicione chifres e uma cauda pontuda em todos os habitantes e aumente o número de monstruosidades que já ocorrem no mundo humano. Ah, é um pouco mais quente, também.
Desejo a você sorte na sua vida efêmera, e que morra de uma maneira agradável, diferente da minha.
Espero-te no inferno.



*Referência à obra "Memórias de Brás Cubas", de Machado de Assis. Brás Cubas diz, no início do livro, que não é um defunto autor, mas um autor defunto.



E acabou! Agora é o final mesmo. Para quem acompanhou Paul, espero que tenham gostado!
É sempre meio triste terminar um livro, mas...
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Paul II - cap 17

Capítulo 17

Dois dias depois, eu caminhava sozinho pela cidade, arrastando minha mala. Como Sally morreu, o pai dela não quis mais me manter de graça no hotel. Levava comigo o dinheiro que eu e Sally ganhamos trabalhando. Procurei um apartamento barato para alugar durante minha caminhada, mas os mais baratos, mesmo que eu pudesse pagar naquele momento, ficariam impossíveis de manter mais tarde, já que Sally não trabalharia mais comigo para ajudar nas despesas.
Aquela noite, dormi na rua. Não me importei muito, pois tinha um cobertor e aquela pilha de jornais estava confortável o suficiente. O problema maior foi que, na manhã seguinte, todo o dinheiro havia sumido.
Depois de me punir, metendo a testa na parede até estar a ponto de rachar, por não ter escondido o dinheiro na cueca ou em qualquer outro lugar mais seguro, continuei a caminhar sem rumo.
Quando me dei conta, estava em um bairro um tanto quanto conhecido. Era o bairro silencioso e cinzento onde cresci. E lá estava minha antiga e sombria casa.
A porta se abriu, e espiei, curioso para ver que tipo de gente estava morando lá. E dei de cara com meu pai.
Ele sinalizou com o dedo para que eu entrasse. Como não tinha mais para onde ir, o obedeci.
- O que está fazendo aqui? - perguntei, enquanto ele trancava a porta.
- Depois que você fugiu, vendi a outra casa e comprei esta de volta. A moça que a havia comprado estava tentando se livrar dela como uma louca, dizendo que viu o diabo na gaveta de um quarto. Bom, porque eu prefiro esta casa à outra.
Eu sorri. Jonhson estava bem, afinal. Resolvi visitá-lo mais tarde.
- Sente-se - convidou meu pai - Vou preparar um café.
Sentei-me, olhando em volta. Percebi o quanto eu estava com saudades daquele lugar. As paredes de madeira, os móveis antigos. O alçapão que dava para o porão.
- Eu trouxe de volta o baú de ossos, se quer saber - disse meu pai - Mas me diga: o que você estava fazendo todo detonado na rua, arrastando uma mala? Ainda por cima, com o cabelo desarrumado?
Resolvi ignorar a última parte.
- Engravidei Sally. Juntamos dinheiro para alugar um apartamento. Sally foi assassinada. Fui expulso do hotel do pai dela. Dormi na rua. Roubaram meu dinheiro - resumi.
- Foi assassinada? Por quem?
- Sei lá o nome dele. Era um humano nojento e desprezível.
- Um humano, hum?
Ficamos calados.
- Pai... - chamei, com nojo, pois não o considerava muito como um pai - Por que eu matei Luna?
- Bem... - Henry suspirou - Eu já deveria ter te contado isso antes, mas tive medo que se sentisse obrigado a cumprir sua tarefa.
- Tarefa?
- Vou te contar uma história... Há alguns séculos, um grupo de demônios recolhedores foram mandados do inferno para a terra. Demônios recolhedores são aqueles que recolhem almas pecaminosas para o inferno. Estes demônios se espalharam pelos continentes, um para cada... E se reproduziram com humanos.
Ele tomou um gole de seu café e continuou.
- Os cientistas diriam que os filhos de demônios com humanos são híbridos. Mas, mesmo assim, são seres extremamente compatíveis. E, por isso, seus filhotes são férteis por 10 gerações, com o sangue de demônio cada ver mais fraco em cada uma. E você, Paul, é a nona geração.
Eu o encarei, incrédulo.
- Você está dizendo que eu tenho sangue de demônio?
- Muito fraco, mas tem. Você ainda guarda grande parte da força de um sangue-puro, e cumpre, por instinto, seu dever. Mas perdeu qualquer poder místico ou aparência física de um demônio. Eu tenho apenas as orelhas levemente pontudas, mas é quase imperceptível. Minha bisavó, no entanto, tinha chifres.
- Sobre eu cumprir instintivamente meu dever... O que quer dizer com isso?
- Seu dever de descendente de demônio recolhedor é, como eu disse, colher almas podres. Me diga, Paul, quem você já matou?
Pensei por um instante e citei: O mendigo que assediou minha mãe, os caras que atacaram Sally... Mas também teve aquela garota da minha escola... E Luna.
- A garota, pelo que me descreve, tinha inveja de Luna. Provavelmente, a alma dela estava corroída de inveja, e por isso humilhava as outras meninas - disse Henry - Mas... O que sabe me dizer sobre Luna, Paul?
- Bem, ela era doce, delicada, ingênua, pura...
Meu pai começou a rir como um maníaco.
- Não, Paul. A Luna era pecaminosa como todos os outros que você matou. Ela mereceu morrer, como todos eles.
Ao ouvir isso, avancei sobre ele, agarrando-o pela gola da blusa. Henry nem piscou.
- COMO OUSA? - gritei.
- Estou apenas dizendo o que percebi, do pouco que observei dela. Nunca vi garota mais atirada. Ela só pensava numa coisa, Paul.
- Que coisa?
- O que aconteceu naquele dia? Digo, quando a matou.
- Eu tinha contado que minha mãe morreu.
- E o que ela fez?
- Ela disse que sentia muito e me trancou no quarto dela, querendo me dar um presente.
Meu pai estava visivelmente segurando o riso.
- Presente? Que presente? - perguntou.
- Sei lá... Ela... Começou a me beijar...
- É pior do que imaginei - ele disse, rindo - Parece que ela estava planejando isso desde o começo. Só quis uma coisa com você desde que o conheceu. Estava tão planejado que nem uma tragédia como a morte da sua mãe a abalou.
- Você quer dizer... - eu estava confuso - Mas pensei que ela nunca teve nenhum namorado sério.
- Não sei se é verdade, mas, se for, não importa. Ela tinha o corpo puro, mas a alma consumida pela luxúria. O importante é a alma, Paul.
Ponderei sobre aquilo por alguns instantes.
- Quer dizer que... Ela nunca me amou?
- Não sei. Talvez tenha amado, mas parece que ela já te queria fisicamente antes de te querer emocionalmente. Ela correu atrás de você com esse objetivo. O amor veio com a convivência. Mas, se ela não tivesse te conhecido, iria querer qualquer outro cara fisicamente atraente na sua sala.
- Mas... E Sally? Por que não a matei? Nunca nem tive vontade de matá-la, e ela era psicopata, além de ter feito essas coisas que a Luna queria comigo.
- Mas ela não te quis com esse propósito. Além disso, como você mesmo acabou de dizer, ela era psicopata, ou seja, era doente mental. Isso não conta como um pecado. Você não tinha motivos para matá-la. O que mais pode me dizer sobre ela?
- Bem... Os pais dela são uns babacas. Eles não conversam, não se preocupam nem se importam com ela. Nem mesmo quando descobriram que estava grávida.
- Hmm... Então ela não deve ser psicopata, e sim sociopata. Conviver com pais assim provavelmente ajudou a desenvolver a doença. Acho, Paul, que tudo o que ela queria, ao andar com você, era um pouco de atenção de alguém que a entende.
Pensei sobre o assunto. Era por isso que ela havia me perguntado se eu a amava, quando estava para morrer. Senti pena de Sally.
- E pai... Por que você traiu minha mãe? - perguntei.
- Bem... Eu era jovem e estúpido. Por causa do meu instinto, que é mais forte em mim do que em você, me sentia atraído exatamente por quem tinha a alma podre. E sua mãe, cujo casamento comigo foi arranjado, era pura como uma nuvem. Conheci aquela mulher quando sua mãe ainda era minha noiva. A mulher, que, se me lembro bem, se chamava Elaine, só queria ser rica no futuro. Tenho certeza que, quando bateu lá na outra casa, só veio atrás do dinheiro. Com certeza não estava tentando defender honra, respeito ou qualquer coisa digna. Avarenta como o Tio Patinhas, ela. Por isso a matei. Já a filha dela, não sei se pecava. Essa eu matei porque tenho um péssimo caráter, mesmo.
Ele suspirou.
- Eu amei Elaine, mas era uma paixão falsa, movida pelo instinto. É uma emoção que surge para nos manter próximos do pecador até que colhamos sua alma. Inclusive, Paul, sua paixão pela Luna pode ter sido exatamente isso.
Henry tomou outro gole de café, mas torceu os lábios.
- Está frio.
E, enquanto ele se preocupava com a temperatura do café, eu tentava digerir tudo aquilo. Eu, um descendente de demônio. Era, ao mesmo tempo, óbvio e impossível. Afinal, por mais absurdo que seja, minha vida inteira foi tão esquisita que nada me surpreendia.
Luna, que eu acreditava ser pura e doce, era uma tarada que me manipulou como um cachorrinho apenas para satisfazer seus desejos carnais. E ela era tão egoísta que nem a morte de minha mãe atrapalharia seus planos, se eu não a tivesse matado. Enquanto isso, sofri uma paixão falsa por ela, uma mentira que me induzia a colher sua alma.
E Sally, que eu sempre pensei que fosse uma pessoa cruel, não tinha nenhum pecado. Até ela mesma acreditava ser uma pessoa horrível, mas não era.
- Vou pro quarto - avisei - Preciso pensar.
- Claro. Vai te fazer bem.
Subi para o meu antigo quarto e abri a gaveta onde meu diabrete sempre ficava. Ele estava lá, dormindo. Eu sabia que não estava morto porque roncava como um liquidificador.
Deitei-me na cama e cochilei.
terça-feira, 16 de outubro de 2012 0 comentários

Paul II - cap 16


Capítulo 16

- Está se sentindo perseguido? - perguntou Sally, encostada no carro, em uma noite na qual resolvemos passear nele, já que Sally visitou a casa dos pais apenas com o objetivo de surrupiá-lo.
- Um pouco - respondi, olhando em volta. Ouvi risos. Duas sombras humanas projetaram-se na parede iluminada pelo poste.
- Ora, ora - ouvimos uma voz de homem - Quem diria... A ruivinha e o monstro. Finalmente encontramos vocês.
Dois rapazes foram iluminados. Pude reconhecê-los: eram os que tinham conseguido fugir naquela noite.
Era pior do que eu e Sally imaginávamos. Ao invés de chamar a polícia, eles resolveram se vingar pessoalmente. Claro que isso facilitava meu trabalho por serem apenas dois, mas o ódio os deixava mais fortes e determinados do que qualquer policial.
- Estão prontos para morrer? - perguntei, estralando os dedos em punho.
- Não, não - o outro rapaz disse - Vocês é que vão morrer hoje - e sacou um revólver do bolso, disparando contra a lâmpada do poste. A rua ficou escura.
Sally sacou a própria arma.
- Paul, você dirige - ela disse, e eu entrei no carro.
Sally entrou logo depois, e eu arranquei. Comecei a dirigir o mais rápido possível, com a precisão de uma barata tonta.
Os caras começaram a correr como uns loucos atrás do carro, e atiraram várias vezes na nossa direção. Mas, como eu era incapaz de manter o carro em linha reta, nenhum tiro nos atingiu.
Sally atirou pela janela, também errando em quase todas as tentativas. Mas acertou, em um momento, o joelho de um dos caras.
Quando eu olhei pelo retrovisor para ver o que Sally atingiu, batemos em um poste. O carro morreu completamente.
- Você está bem? - perguntei para Sally.
Sally, suada, confirmou com um aceno de cabeça. Por sorte, o poste atingiu o carro exatamente no meio, e nenhum de nós se machucou.
Descemos do carro. Um dos caras ajudava o outro, que estava quase se arrastando, a andar.
Sally atirou mais uma vez. Nesta, ela atingiu o rapaz que não estava ferido no peito. Este soltou um gemido e caiu.
O outro tinha puro ódio nos olhos. Ódio e agonia, pela dor que sentia na perna.
- Desgraçados... DESGRAÇADOS - ele berrou, cuspindo.
E continuou mancando na nossa direção. Sally tentou atirar nele, mas descobriu que as balas acabaram. Ele apontou a arma para Sally.
- Não ouse atirar - eu disse - Se você atirar, eu te ataco.
- Já estou ferrado, de qualquer jeito - ele disse, rindo.
E atirou. A bala seguiu seu rumo e atravessou a barriga de Sally.
Sally caiu de joelhos. Mais um tiro. Outro furo na barriga. Sally pôs as mãos no chão. Seus braços tremiam. Ela se deitou de barriga para baixo.
- Bastardo - murmurei. Agarrei uma lata de lixo e a lancei, com toda minha força, na cabeça do sujeito, que caiu. Desmaiado ou morto, não me importava. Ajoelhei-me ao lado de Sally.
Ela estava em uma enorme poça de seu próprio sangue. Virei-a para poder ver seu rosto.
- Paul... - ela estava pálida e respirava com dificuldade.
- Me perdoe por não conseguir proteger você - pedi.
Sally riu.
- Tanto faz, Paul. Ninguém vai se importar... - e encarou o céu, meio vesga - Paul... Você me ama?
Eu a encarei por um tempo.
- Não vou mentir para você, Sally - disse, enfim - Não te amo.
Ela riu mais ainda.
- É o que pensei... Ninguém nunca... Disse que me ama... Nunca... Nem mesmo... Meus pais...
Sally tossiu sangue.
- Que morte patética - ela disse, com a voz fraca.
E foram suas últimas palavras.
Observei seu rosto sem vida. Muita gente diz que a morte é pacífica, assim como adormecer. Olhando para Sally, era difícil acreditar nisso. Seus olhos vazios e arregalados diziam desespero, e sua expressão, inquietude.
Acariciei seu rosto frio de suor. Depois peguei o celular que ela guardava no bolso. Liguei para a polícia.
- Tem três corpos aqui - contei, e forneci o endereço. Desliguei sem mais nenhuma palavra.
Levantei-me e passei ao lado dos dois caras. O que levou o tiro no peito estava perfeitamente morto. O outro acordou, tonto e gemendo, do desmaio.
Encontrei uma garrafa no chão, e a estourei contra a testa dele. Peguei um caco grande e pontiagudo de vidro e finquei no coração do rapaz. Então fui embora.
Aquela noite, escrevi um poema sobre Sally.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012 0 comentários

Paul II - cap 15


Capítulo 15

Eu e Sally conseguimos um emprego na mesma lanchonete onde eu chamei a Luna de bruxa. Eles pagavam surpreendentemente bem para trabalharmos meio período, mesmo sendo uma lanchonete pequena e não muito famosa.
Alguns meses se passaram, e Sally estava com a barriga cada vez mais inchada, ou seja, cada vez mais difícil de escondê-la dos pais.
Quando ela estava, aproximadamente, com 5 meses de gravidez, ela veio conversar comigo, parecendo estressada.
- Meu pai descobriu - ela disse.
Merda.
- E aí, estamos na rua? Posso arrumar minhas coisas?
Sally sentou na cama e ficou calada.
- Hein, Sally? O que seu pai disse?
Sally olhou para mim.
- Ele não se importou.
- Como assim? Como ele não se importaria?
- Ele não ficou com raiva. Nem feliz. Ele apenas disse para ter certeza que você não fuja.
Pelo jeito, o pai da Sally era mesmo tão ruim quanto o meu, se não pior.
- Ah... - eu disse - Que bom. Digo... Não vamos parar no olho da rua. Não temos mais preocupações.
- Tá doido? Agora sim eu quero sair de casa. Vamos continuar trabalhando. Quero ficar livre de qualquer dependência a meus pais. É bom que ele não tenha me chutado para fora de casa, mas ele ficou totalmente apático à notícia, como se eu não fosse filha dele. Como se eu não fizesse parte da vida dele.
- E sua mãe?
- Ela nem ouviu nossa conversa, e estávamos na frente dela.
Sally olhou pela janela.
- Quanto mais convivo com eles, mais quero matá-los.
- Sinto o mesmo sobre o meu pai - falei - Acho que, se eu não tivesse fugido e ficasse morando sozinho com ele, um de nós dois morreria.
- Pelo menos você tinha sua mãe.
Tinha. Admito que essa palavra doeu um pouco em mim.
Sally deitou-se.
- Mais uma coisa... Resolvi morar aqui com você por enquanto. Não quero ver a cara daqueles dois - ela sorriu para mim - Vai gostar da minha companhia?
- Argh, que saco.
Nós dois rimos, e começamos a fazer planos para o futuro.
Planos que, é claro, não poderiam acontecer.
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Paul II - cap 14

Capítulo 14

No dia seguinte, eu e Sally conversávamos no quarto de hotel.
- Paul - disse ela - Sabe o que me preocupa?
- O quê? - perguntei, enquanto mexia nos cabelos dela.
- Aqueles dois caras que escaparam. E se eles nos denunciarem?
- Tem razão. Devíamos ter pensado nisso ontem. E agora?
- Vou passar a andar com o revólver por aí, caso a polícia nos persiga - ela sorriu - Qualquer coisa, tenho você.
- Virei um objeto agora?
- Algo parecido com isso...
- Você não presta.
- Eu sei.
Abracei Sally com cuidado.
- Eu estive pensando... E se eu acabar matando nosso filho?
- Está planejando fazer isso?
- Não, de jeito nenhum! Mas não sei, posso me descontrolar... Seria uma tragédia.
- Tanto faz. Eu provavelmente não me importaria. Não me importo com ninguém.
Por mais cruel que isso soasse, eu sabia que era provável. Por ter crescido com um pai que não estava nem aí para mim, e só fazia me mandar arrumar o cabelo e gritar com minha mãe, eu achei ainda mais possível que Sally simplesmente não se importasse com o próprio filho, sendo ela psicopata.
- Já decidiu o que fazer? - perguntei - Digo, sobre a gravidez? Seu pai não pode saber, lembra?
- Ele que se dane - disse Sally - Vou começar a trabalhar. Até ele descobrir, devo ter dinheiro suficiente para alugar um apartamento. E claro... - ela olhou para mim - Se você me ajudar, podemos alugar um apartamento bem melhor, juntos.
- Claro... Se não me deixar na rua e ficar com o apartamento só para você.
- Combinado, então.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012 0 comentários

Paul II - cap. 13


Capítulo 13

As férias acabaram, para meu desprazer. Mesmo assim, eu e Sally não deixamos de sair na rua à noite para beber, escutar música e passar o tempo.
Certo sábado, resolvemos passear a pé pela cidade, por cantos para nós desconhecidos. Em uma rua mal iluminada e suja, ouvimos risos.
Um grupo de caras esquisitos estava encostado na parede, nos encarando. Um deles assobiou para Sally.
- Ei, bonitinha. Vem cá se divertir com a gente - ele disse.
- Você é cego? - Sally perguntou - Meu homem está aqui comigo.
- Ah, sim, eu vi...
Eles andaram até a Sally. Se me lembro bem, eram uns cinco caras. Um deles agarrou-a pela cintura. Sally lhe deu um murro no nariz, que logo começou a sangrar.
- Vadia... - ele disse, e encostou uma faca na a garganta de Sally.
Sally colocou a mão no bolso e puxou o canivete.
- Opa - disse o cara, pressionando a faca contra a pele dela - Nada de truquezinhos... Larga isso aí, se quiser viver...
Sally soltou o canivete, que caiu no chão, emitindo um som metálico que ressoou pela rua silenciosa.
- Agora... Faça o que a gente quiser... E não se preocupe, seu namoradinho não pode fazer nada para nos deter...
Enquanto eu observava a cena, um ódio subia pelo meu corpo, tomando completamente meu cérebro e mexendo com meus sentidos. Foi o mesmo que eu havia sentido a oito anos antes, no episódio do mendigo cujo crânio coletei. Minhas mãos tremiam, meus olhos só focavam nos cinco caras que ameaçavam Sally. Eles eram podres.
Avancei sobre eles como um animal. Primeiro, no rapaz que segurava a faca. Arranquei o braço que segurava a arma com minhas próprias mãos, e, me apossando da lâmina, o esfaqueei quinze vezes no peito. Joguei o corpo na parede, e, rápido como uma flecha, lancei a faca contra ele, prendendo-o à parede pelo pescoço.
Virei-me vagarosamente para os outros caras, que estavam paralisados. Corri até eles, e eles começaram a correr de mim. Mas não rápido o suficiente. Derrubei dois deles no chão, e pisei em suas cabeças até estourar o crânio de cada um.
Arfando, olhei em volta. Percebi Sally, que me encarava, horrorizada.
- Onde estão os outros dois? - perguntei.
- Fugiram. Deixe eles pra lá - disse Sally.
Olhei para mim mesmo. Estava banhado em sangue. Minha calça nova já era.
- Paul... - Sally disse - Você... Estava assustador. Eu até tive medo de que avançasse em mim. Eu... Não conseguia ver seus olhos, eram uma máscara negra. Havia só um brilho... Demoníaco.
Respirei fundo. Devia ter sido horrível, se até Sally ficou amedrontada. Olhei de novo para ela, esperando que ela tivesse passado a me odiar.
Mas ela sorria. Como se acabasse de descobrir a cura da AIDS.
- Você... É uma arma viva - ela disse - A mais perigosa arma viva. Fascinante...
E ela riu.
- Imagino que tipo de monstrinho será o nosso filho...
- Eu sei que sou um monstro - falei - E você, está bem?
- Estou ótima. Obrigada por me salvar daqueles canalhas. Melhor a gente ir pra casa.
Olhei para o corpo na parede. Os dedos dele ainda mexiam em convulsão. Digo, os dedos da mão que ele ainda tinha.
- É, acho que hoje exagerei. Vamos embora.
Antes de poder ir para o hotel, no entanto, Sally comprou algumas roupas para mim em uma loja que, por sorte, ainda estava aberta. Lavei o rosto e as mãos numa fonte, e joguei minhas roupas numa lata de lixo. Depois disso, pude ir dormir.
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Paul II - cap. 12


Capítulo 12

Certa noite, Sally me visitou no hotel. Ao contrário da maioria das vezes, desta ficamos apenas conversando.
- Paul, eu percebi uma coisa... Nunca vi você matar ninguém. Sabe, fiquei assustada quando cheguei na casa da Luna aquele dia e vi aquela... Confusão sangrenta. O coração dela pra um lado e ela pro outro, tinha sangue até no teto. Como você fez aquilo?
Suspirei. Não gostava de falar sobre aquele dia.
- Bem, usei só uma mão - respondi.
- Uma mão? Que tipo de coisa você é?
- Boa pergunta.
Ficamos calados.
- Sabe, Paul... Na verdade, eu vim aqui por um motivo hoje. Tenho uma coisa para contar.
- Conte.
Sally parecia agitada, mexendo nas pontas dos dedos.
- Fiz um teste um dia desses - ela disse.
- Teste de quê? De saúde?
- Não...
Ela virou para mim e me olhou nos olhos.
- Estou grávida.
Que bom. Ela não estava com câncer nem nada e...
Espera.
- O que você disse?
- Disse que estou com uma droga de bebê no útero.
- Sim, mas... Meu?
- Não, da minha avó. Lógico que é seu!
Era estranho pensar que eu, que sempre causei apenas morte, tinha a capacidade de criar vida.
- Pensando agora... - disse Sally, pensativa - Nunca nos prevenimos de maneira alguma.
- Eu pensei que você estivesse usando aquelas pílulas ou sei lá.
Sally bateu a testa na parede.
- BURRA! BURRA! BURRA! - ela gritou.
- Fica tranquila. Eu vou te ajudar.
- Não, o problema não é com você, de verdade. Eu sei que não me largaria sozinha. Mas meu pai me expulsa de casa se ele ficar sabendo. E expulsa você daqui também. Vamos ficar na rua, Paul. NA RUA!
Ela se deitou na cama e ficou encarando o teto. Eu não sabia mais o que dizer, e, pelo jeito, ela também não.

domingo, 7 de outubro de 2012 0 comentários

Paul II - cap. 11


Capítulo 11

Nossa relação mudou um pouco desde então. Agora nossos encontros não se restringiam apenas à piscina e ao cemitério. Começamos a nos encontrar muito no meu quarto de hotel.
Certo dia, também, Sally resolveu me apresentar a seus pais. Ela disse que eles tinham insistido muito nisso, então eu fui.
Quando cheguei à casa dela, vi apenas a empregada servindo a mesa.
- Cadê seus pais? - perguntei.
- Ah... Mas que droga, acabei de chamá-los.
Ela sumiu dentro do corredor que dava para os quartos. Voltou um pouco depois, com um casal bem mais velho do que meus pais eram. Uma mulher com um olhar sério e um homem de expressão rabugenta.
Sentaram-se à mesa e olharam para mim.
- Paul, não é? - perguntou o senhor.
- Sim, sou eu.
- Seu amigo parece esquisito, Sally - disse ele, servindo-se.
- Ele não é só meu amigo, eu já disse... E você, mãe? Não vai cumprimentá-lo?
- Hmmm...? - a mãe de Sally levantou os olhos do tablet no qual estava mexendo - Ah... Boa noite, Pablo.
- É Paul - corrigi.
- Foi isso que eu disse, Pablo. - e voltou a olhar para o tablet.
Ela não estava prestando atenção. Fiquei tão nervoso que entortei o garfo que estava segurando sem nem perceber.
Seguiu-se completo silêncio. Eu olhava para meu prato, com preguiça de me servir. Sally já havia se servido, mas encarava seus pais, ansiosa, sem tocar na comida. Seu pai estava comendo como um porco, e sua mãe comia uma garfada de comida a cada três minutos que mexia no tablet.
- Então... - Sally pigarreou - Não querem conversar com ele sobre nada?
- Fique quieta e coma, Sally. - disse o pai - Sabe que não gosto que interrompam meu jantar com conversa.
Sally olhou para seu prato e começou a comer. Eu resolvi finalmente me servir e fazer o mesmo.
O pai dela terminou a refeição e simplesmente saiu da mesa e foi para o quarto. A mãe continuou lá, mexendo no tablet, mesmo depois de terminar de comer.
- Que bom que tem amigos novos, Sally... - disse ela - O Pablo parece ser um bom garoto.
Sally parecia estressada.
- Acho que vou pra casa - eu disse. Não aguentava aquele clima mais. O ambiente naquela casa era quase pior do que o da minha. Digo, quando eu morava lá.
Dei um beijo no rosto de Sally e voltei a pé para o hotel.
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Paul II - cap. 10


Finalmente, depois de muitos anos, continuei a escrever Paul. Desculpe a demora, e espero que gostem.

Capítulo 10

Luna deve ter se revirado em sua cova, enquanto nos revirávamos sobre sua cova. Tenho sorte que zumbis não existem, ou eu poderia acabar tendo meu pescoço agarrado por mãos de cadáver em decomposição.
Deviam ser cinco horas da manhã quando eu e Sally, nus e abraçados, observávamos a aurora.
- Sally - chamei.
- O quê?
- Você já fez isso antes, não fez?
- Bem... Sim, por quê?
- Nada... É que pensei que teria sangue.
- Está decepcionado?
- Cala a boca.
Ficamos um tempo calados.
- Ei, Paul - chamou Sally. Respondi com um "uhum?" - Qual é seu maior sonho?
- Não sei... Acho que nunca tive sonhos de vida assim.
- Hm... Sabe qual é o meu?
- Pode falar.
Sally estendeu a mão para o céu, com um olhar distante. Apontou a lua, que ainda estava visível.
- Eu queria ir para a lua... Ou qualquer planeta inabitado... Levar todas as pessoas que gosto e admiro... E formar um novo mundo.
- Você sonha alto demais.
- É, eu sei...
Ela abaixou a mão e suspirou. Eu nunca a vi tão vulnerável daquele jeito. Não a reconheci.
- Sabe, Paul... Um dia, perguntei para o meu ex-namorado o que ele gostava em mim.
- E o que ele disse?
- Que me acha bonita.
Silêncio.
- Só? - perguntei.
- É... acho que ele nunca me amou.
Mais silêncio.
- Sabe... De vez em quando, eu queria ter sentimentos como todo mundo. - ela disse.
- Sério? Pensei que fosse feliz assim.
- É... - ela sorriu para mim. - Tem razão. Acho que sou...
- Ei, melhor a gente ir embora. Alguém pode passar aqui.
- Vamos...
Vestimo-nos, catamos nossas coisas e voltamos para casa.
 
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