quarta-feira, 14 de dezembro de 2011 4 comentários

Paul II - Capítulo 6

E finalmente! Não posto Paul já tem mais de um mês, sei que vocês devem ter ficado curiosos, mas a preguiça de digitar é grande hehe. Espero que gostem!

Capítulo 6

No domingo seguinte, fui ao cemitério à noite. Eu costumava ir para lá ver o túmulo da Luna à noite, porque ficava vazio e não tinha nenhuma velhinha falando sobre seu falecido marido que foi um homem maravilhoso e bravo na guerra.
Ao chegar lá, troquei as flores do túmulo e fechei os olhos. Era noite, o horário dos mortos. Por mais estranho que pareça, com um pouco de esforço, eu podia ouvir o sussurro das almas no silêncio do cemitério. Principalmente a doce voz de Luna me dizendo...
- Sabia que você estava aqui – sussurrou Sally no meu ouvido. Quase desmaiei de susto. Ela riu.
- O que está fazendo aqui? - perguntei.
- Vim te procurar. Como sempre, encarando o túmulo dela, não é?
Ficamos calados por alguns instantes. Os grilos cantavam enquanto o vento mexia nos cabelos espessos da Sally como se fosse uma carícia.
- Nunca teve curiosidade de... - começou ela.
- De?
- Ah, esqueça. Toma.
Ela me jogou uma garrafinha de bebida. Era Ice. Abri e tomei um pouquinho. Era bem mais suave que whisky. Senti-me bem. Bebi mais três grandes goles.
- Gostou? - perguntou Sally.
- Eu podia viver disso! - dizendo isso, virei a garrafa inteira – Pensa rápido!
Joguei a garrafa em direção à cabeça de Sally, que se abaixou na hora. Ela virou a dela também e jogou em mim. Eu estava meio tonto e não reagi, mas a garrafa só bateu na minha testa e caiu no chão, quebrando na queda.
- Ai – exclamei. Nos encaramos e começamos a rir alto.
- Ei, Paul – disse Sally – Não tem curiosidade, como eu ia dizendo, de desenterrar um desses corpos e ver como é?
- Qual?
- Sei lá... O da Luna, por exemplo.
- Da Luna não. Deixa ela quieta.
Me sentia realmente nervoso. Sally riu e me abraçou.
- Estou brincando, Paul, relaxa. Vamos sair desse inferno.
- Ir pra onde?
- Lá pra casa. Tem piscina. E pistolas de água.
- Não sei...
- Aí a gente faz hambúrgueres.
- A gente fazemos? - perguntei, sem ter noção de conjugação verbal.
- É.
- Então vamos!
- Vem. A gente chega mais rápido de carro.
Ela me puxou pra fora.
- Quer dirigir?
- Mas eu não sei...
- E daí? Só faz que nem nos filmes.
Eu era como um fantoche da Sally, mesmo não percebendo isso na época. Entramos no carro e dirigi, do jeito que eu imaginava que fosse. Assim que virei a primeira esquina, derrubei um tanto daqueles cones laranjas.
- Seu idiota! Está fechado!
- Opa. Como volto?
- Ah, que se dane. Continua aí!
Continuei.
- Mais rápido!
Meti o pé no acelerador. Corremos alguns metros, e avistamos um enorme buraco na rua.
- E agora? - perguntei, desesperado.
- O passeio! Vai pro passeio!
Dei uma virada brusca em torno do buraco e entrei no passeio, derrubando lixeiras e atropelando um cachorro.
- Ah, merda.
- Esquece ele – disse Sally – O poste! Cuidado com o poste!
Virei no exato instante em que ia bater o poste, quase subindo nas paredes da casa ao lado. O buraco passou. Voltei para a rua.
Suspiramos de alívio. Derrubei mais alguns cones.
- Certo, vamos ali e você “diminói” a velocidade. É mais movimentado lá. Já estamos chegando.
Continuei a dirigir até chegarmos na casa da Sally. Percebi que conhecia aquela parte da cidade, e poderia voltar para casa a pé dali. Deixamos o carro na garagem.
A casa era enorme, e muito bem arrumada. A família da Sally devia ser realmente rica. Os pais dela não estavam lá.
- A piscina fica ali – disse Sally, enquanto tirava a jaqueta – Acho que já tem uns hambúrgueres prontos na geladeira. Vou esquentar.
Sally foi para a cozinha. Tirei meu casaco e peguei mais uma garrafa de Ice da bolsa dela. Bebi enquanto pensava na sorte que tínhamos por estarmos vivos, e se o dono do cachorro poderia aceitar um filhotinho novo. Se o cachorro tivesse dono. Joguei a garrafa vazia pela janela.
Sally voltou, pouco depois, segurando uma bandeja com os hambúrgueres, apenas a carne. Sentamo-nos no sofá e devoramos a carne em poucos minutos.
- Vamos nadar! - Sally disse, me puxando até a piscina, que ficava em um cômodo. As paredes do cômodo eram feitas de vidro. Me senti numa estufa, e imaginei, na minha tontura, que eu fosse uma planta, talvez uma planta cheia de espinhos, e a Sally era uma rosa. Ri disso.
Sally pulou na água e eu caí junto, de roupa e tudo. A água era morna. Jogamos os sapatos para fora e comecei a boiar na água, de olhos fechados.
- Paul – chamou Sally, e eu abri os olhos só para ganhar um jato de água no nariz.
- Desgraçada! - num salto, peguei a pistola de água da mão dela e atirei nela várias vezes. Ela começou a rir e recuou.
- Eu me rendo, eu me rendo! - disse ela, mas pegou outra pistola da beira da piscina e começou a atirar de volta.
Rimos alto. Sally se aproximou de mim e tirou o brinquedo da minha mão. Jogou as duas armas letais no outro lado da piscina e me abraçou. Abracei-a também. Ela me puxou e me beijou.
Desta vez, apenas fechei os olhos e retribuí.
Não era como beijar Luna. Não tinha tanto carinho. Ao invés de sentir o beijo no coração, senti mais para baixo.
Enfim Sally me soltou.
- Olha as horas... - disse ela, olhando o relógio na parede enquanto mexia na gola da minha blusa – Meus pais devem chegar daqui a pouco. É mais seguro você ir embora.
Olhei para ela, meio abobalhado. Acariciei os lábios dela.
- Tudo bem, Sal...
Beijei o rosto dela e fui.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011 1 comentários

Luto

   Hoje, mais uma vida foi levada pelo mundo do crime.
   O porteiro da minha escola, Wanderson, foi assaltado esta manhã. O diretor não deu muitas informações, mas sei que ele foi baleado, e chegou a falecer.
   No início, não consegui entender. Wanderson, que estava sempre ali de manhã, dando bom dia. Wandão, que sempre nos acompanhava nas excursões. O Wandão que nos consolava sempre que nos via chorando. O Wanderson que estava sempre disposto a ajudar, não importa com o que fosse. Ele não poderia morrer assim. Ele era querido. Ele era forte.
   Mas uma bala... Uma bala que perfura carne, músculos, ossos, coração... Nem o mais forte dos homens sobrevive a uma bala certeira, só se por milagre... E nosso Vanderson foi vítima de três tiros... E o tiro é uma covardia da parte dos bandidos, que atiram em quem não tem como se defender... Uma covardia com efeitos trágicos...
   Chorei quando percebi que tudo aquilo era verdade, e ainda choro agora, assim como muitos dos meus colegas e professores... Mas também vi gente que não quis acreditar. Gente que dizia: "Um homem daquele tamanho? Não, não pode ter morrido". Ou que simplesmente não queria acreditar... Sabe quando você gosta tanto de alguém, que acaba pensando que a pessoa é imortal?
   Provas adiadas, festivais de música e dança suspensos... Mas nada disso se compara aos corações partidos e lágrimas derramadas... Num país onde os lobos andam soltos...
 
;