quarta-feira, 20 de julho de 2011 2 comentários

Paul II - Capítulo 4

Capítulo 4

    No dia seguinte, eu estava deitado na cama do hotel, emburrado, vendo o noticiário na televisão. Sentia raiva de Sally por ser tão incompreensiva.
    Então ouvi o barulho de chaves. Sally entrou.
    - Sai daqui – pedi.
    - Primeiro de tudo, quem pode te mandar embora daqui sou eu – disse ela – Segundo, vim em paz. Me desculpe. Só fiquei meio decepcionada. Pensei que você gostava de mim.
    - Eu gosto de você, Sally. Mas não me sinto correto em beijar alguém logo após a morte de Luna.
    Sally revirou os olhos.
    - Mas você só fala dela? Acabou, Paul. Ela está morta. Siga em frente!
    - Eu a matei. Tenho que me sentir culpado, não acha? Afinal, eu a amava. Acho que ainda amo.
    - Eu também gosto de você.
    - Você é psicopata. Não ama de verdade.
    - Você também é.
    - Se eu fosse, não amaria Luna.
    - Quem sabe não a amasse. Se amasse, não a teria matado.
    - Eu matei porque saí do controle. E é por isso que não quero amar mais ninguém.
    - Eu não deixaria você me matar. Fomos feitos um para o outro, Paullie.
    - Não me chame assim. Eu te perdôo por fazer birra, mas não vou ficar com você.
    - Veremos... Vamos voltar a ser amigos, então. Mas não quer dizer que eu desisti.
    - Tudo bem.
    Voltei minha atenção para a televisão. Sally me observava.
    - Como você consegue? - perguntou.
    - O quê?
    - Viver nesse tédio. Você não faz nada.
    - Claro que faço.
    - O quê?
    - Respiro.
    Sally bateu a mão na própria testa. Eu ri.
    - Você devia aprender a se divertir direito – disse ela.
    - Me divertir é chato.
    - Se fosse chato não se chamaria diversão. Que tal sair comigo hoje à noite?
    - Sair para onde?
    - Sei lá. Andar por aí.
    - Tanto faz.
    - Eu vou te mostrar uma coisa...
    Esperei que a coisa não estivesse entre as pernas dela.
    - Tá – falei.
    - Então, te encontro na frente daquela lanchonete ruim da esquina às 8 horas.
    - Tudo bem.
    Ela saiu.
domingo, 10 de julho de 2011 3 comentários

Paul II - Capítulo 3

Capítulo 3

   Passaram-se os meses de aula menos entediantes da minha vida. Por vezes, me esquecia de Luna, mas por outras ela me vinha em mente com muita força. Eu me lembrava de seu sorriso e seu beijo, e lágrimas vagarosas escorriam por minhas bochechas.
   Enfim, chegou o dia do tal baile. Coloquei meu terno de sempre, e já ia arrumar o cabelo quando pensei duas vezes e o baguncei mais um pouco com as mãos.
   Bateram na porta. Não precisei abrir, pois Sally o fez com a sua própria chave do hotel.
   - Está pronto? - perguntou.
   - Sim.
   Olhei as roupas de Sally. Usava algo como um cachecol de pele, mas nos ombros ao invés do pescoço, e um vestido vermelho. Seus cabelos estavam em coque, mas continuavam rebeldes. Seu rosto estava bem maquiado, sem nenhuma marca. Ela sorriu.
   - Está bonito – disse ela.
   - Você também – deixei escapar – Esse negócio é de pele mesmo?
   - Sim. Pele de chinchila – respondeu ela – Era da minha tia-avó. Mas agora venha, donzela. Levar-te-ei ao baile.
   Rimos. Saímos e descemos para o carro. Ela ficou no volante.
   - Seu pai te deixou dirigir? - perguntei.
   - Não – ela disse e riu alto. Depois ligou o carro e fomos para a escola.
   A escola estava decorada de amarelo e vermelho. Antes de entrar pelo portão, nos entreolhamos. Ela segurou meu braço e abaixou o treco de pele para mostrar a pele alva de seus ombros e a parte de cima do seu vestido vermelho. Entramos.
   Os olhos do pátio (transformado em salão) se viraram todos para nós. Os queixos dos garotos caíram. As garotas cochicharam.
   Sally se sentou e eu olhei para ela para entender a reação dos caras. Percebi o quanto o vestido e batom realçavam seus cabelos. Também nunca havia notado nas roupas que ela costumava usar, mas seus seios eram volumosos e chamativos sob o pano. Ela tinha um ar esperto e perigoso. Parecia uma leoa dentro de um corpo frágil de garota.
   Ela olhou para os garçons em volta e arfou.
   - Já imaginava. Sem álcool à vista.
   Ela abriu a bolsa e tirou duas garrafas daquelas que vêm com bicicletas.
   - Quer? - perguntou.
   - O que é isso?
   - Whisky.
   Eu nunca havia provado bebidas alcoólicas antes.
   - Eu nunca provei bebidas alcoólicas antes – contei.
   - Então eu insisto que prove.
   Ela me jogou uma das garrafas. Abri o pino e cheirei. Depois pus na boca e, num ato impensado, bebi um gole imenso, que passou queimando minha garganta. Fiz uma careta. Sally riu.
   - Nada mal para uma primeira vez – disse ela, e virou sua própria garrafa – É melhor parar por aqui para não perder a classe.
   Sally guardou as garrafas.
   - Ei, Paullie, vamos dançar!
   Arregalei os olhos. Ela havia usado meu antigo apelido, criado por Luna.
   - Me chamou de quê? - grasnei, e fiquei surpreso com minha própria língua enrolada – Opa! Bebida não é pra mim.
   - Vai melhorar com o tempo. Venha!
   Ela me puxou para o meio do salão (ou pátio) e começou a dançar comigo.
   Eu não tinha a menor noção do que diabos eu estava fazendo com os pés. Sally riu e me guiou gentilmente na dança. Acabei indo bem. Sorri.
   - Viu? Estamos nos divertindo – disse Sally.
   Abri mais o sorriso, sorrindo mais torto do que planejei. Era engraçado sentir os movimentos da cintura da Sally.
   Ela acariciou meus ombros.
   - Você é bem forte, hein? - observou.
   Fitamos nos olhos um do outro por um tempo. Paramos de dançar.
   Então ela se estivou e me beijou nos lábios.
   Fiquei sem reação no início. Ela me puxou pela nuca e me beijou de novo. Separou os lábios e fechou os olhos...
   - Não – eu disse, e a empurrei com um pouco mais de força que o planejado – Por favor, não faça mais isso.
   - Por quê? - ela parecia decepcionada.
   - Não estou pronto para outra ainda. Me desculpe.
   Ela arfou e cruzou os braços. Um cara veio atrás dela.
   - Aaanh... - disse ele – Sally, não é? Quer dançar?
   - Claro – respondeu Sally, e fincou um último olhar venenoso em mim antes de se virar para ele. Dei de ombros.
   - Me avise quando formos embora – gritei para ela.
 
;