quinta-feira, 4 de novembro de 2010 5 comentários

Paul cap 8

 Capítulo 8

   Na sexta-feira, Luna veio falar comigo, animada:
   - Paullie, minha mãe me deu 10 libras para sair para algum lugar. Quer ir comigo?
   - Talvez. Para onde?
   - Para uma sorveteria.
   Ufa. Eu tinha uma desculpa para não ir.
   - Não vou.
   - Por quê?
   - Não gosto de sorvete.
   - Cinema? Podemos assistir a um filme romântico.
   - Odeio.
   - Hambúrguer?
   Droga.
   - Pode ser.
   Ela sorriu.
   - Hoje depois da aula?
   - Tanto faz.
   - Está bem então.
   Por que eu cedia a tudo o que ela pedia? Como ela conseguia me enfeitiçar? O que era ela?
   - Oi, Luna! – disse uma garota fútil e nojentinha como a maioria das da minha sala.- Como vai, amiga?
   - Estou ótima – respondeu Luna.
   - Sei, claro – disse a fútil, olhando para mim. Ela e alguns amigos dela deram risadinhas - Deve estar ótima, saindo com o vampiro psicótico.
   Luna corou:
   - Bem, eu...
   - Onde vai ser seu próximo encontro? No cemitério?
   Ela e os amigos riram ainda mais, e Luna parecia querer chorar.
   Olhei nos olhos da garota nojenta. Franzi o cenho, formando uma sombra macabra que tampava meus olhos como uma máscara. Ela pareceu perceber, e calou a boca por um instante, e me encarou com olhos arregalados. Cerrei o punho.
   A garota parecia assustada. Virou-se para os amigos e falou para eles pararem.
   Depois me deu uma última olhada amedrontada e foi embora.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010 3 comentários

Paul cap 7

 Capítulo 7

   Um pouco depois do almoço, o barulho de punho em madeira ecoou pela minha casa silenciosa. Depois, os passinhos da minha mãe descendo a escada e mexendo num molho de chaves.
   Eu comecei a suar.
   Ouvi a doce voz de Luna dizendo boa tarde, e minha mãe me chamando para descer. Eu corri até a escada. E lá estava ela, mas, em vez de usar a saia listrada até os joelhos como na escola, estava de vestido curto. E, de repente, percebi que eu usava a minha camiseta preferida.
   Luna abriu um largo sorriso. Minha mãe também. Luna subiu a escada até chegar na minha frente.
   Eu queria dizer “É melhor ficarmos na sala, assistindo qualquer coisa na televisão em preto-e-branco”, mas em vez disso, apontei a porta ao meu lado e disse:
   - Esse é o meu quarto.
   Luna sorriu.
   - Eu adoraria dar uma olhada.
   Ela pegou minha mão. Eu senti um calafrio. Depois ela me puxou para o quarto.
   Certo. Eu estava no meu quarto, sozinho com uma garota. Aquilo não ia nada bem.
   Luna olhou em volta.
   - Bem escuro, não?
   Eu afirmei com a cabeça. Ela sentou na cama.
   - E o seu... diabrete? – ela perguntou.
   - Você que ver?
   - Quero.
   Eu abri o armário e abri a gaveta. Acenei para que ela se aproximasse.
   Esperei que ela risse, me chamasse de louco e anunciasse para todos que eu cuidava de um diabrete imaginário.
   Mas, em vez disso, ela arregalou os olhos e ficou muda. Meu diabrete começou a correr loucamente pela gaveta, agitado com a visita.
   - Incrível – disse Luna – Existem. Diabretes existem.
   Ela parecia abobada. Então, deu um sorriso e, decidida, enfiou a mão na gaveta para acariciar o Jhonson.
   - Cuidado! – eu gritei, mas tarde demais.
   O Jhonson mordeu o dedo de Luna com toda a força que tinha. Ela berrou e sacudiu a mão, mas os dentes dele se cravaram muito fundo. Eu peguei as pernas do diabrete e o puxei com violência, tacando-o de volta para a gaveta. Ele ficou tonto com a viagem aérea.
   Luna segurava a mão ferida, gemendo. Eu estendi a mão.
   - Deixe-me ver – pedi.
   Ela pôs a mão sobre a minha. Haviam dez buracos fundos, e o sangue escorria livremente. Minha visão se turvou, e eu aproximei o rosto para observar melhor. Passei um dedo no sangue, examinei e sorri:
   - É tão... vermelho.
   Depois soltei uma risada. E as vozes vieram. “Rasgue-a”, diziam. Sim. Eu iria fazer isso. Por que não?
   Meus devaneios foram interrompidos por aquela doce voz:
   - Paul? Você está bem?
   Eu olhei para o rosto de Luna. Ela me encarava como se eu fosse louco.
   Quero dizer, eu sou louco.
   - Estou ótimo – eu disse, e pigarreei – Bem, não há nada grave aqui. Pelo jeito, ele não te envenenou. Então, você só precisa de alguns curativos.
   Peguei alguns no armário. Ela me olhou ainda mais estranho.
   - Tem certeza que está bem?
   Eu olhei para o curativo que eu segurava. Na verdade era uma cueca. Eu dei uma risadinha sem graça e joguei a cueca pela porta afora.
   - Haha. Confundi, não é? Quero dizer... ambos, curativo e cueca, são brancos e começam com C e U... Quero dizer... bem, eu viajo às vezes.
   Ela continuou a me olhar estranho. Depois riu e disse:
   - Você é engraçado.
   Eu abri algumas gavetas até encontrar o verdadeiro curativo. Peguei um pequeno pedaço de faixa e um antiinflamatório e pus no dedo dela. Ela agradeceu.
   Minha mãe entrou, segurando uma bandeja com café, leite e biscoitos. Ela nunca entendia quando eu falava que odeio doces, principalmente coisas com chocolate, como aqueles biscoitos.
   - Mãe – eu disse – não precisava trazer lanchinho para nós.
   - Vocês não podem ficar só brincando e não se alimentar – disse ela – vocês são crianças e precisam crescer.
   Eu a encarei um momento. Luna riu.
   - Crianças? Crescer? – eu perguntei.
   - Sim, vocês só têm 12 anos.
   Luna rolou no chão de rir.
   - Mãe – eu disse – Não sei se você se lembra, mas eu já tenho 17.
   Minha mãe corou. Deixou a bandeja em cima da cama e saiu dando risadinhas.
   Luna pegou alguns biscoitos e os mordiscou, olhando em volta.
   - Sua casa é legal – disse ela – parece uma casa mal-assombrada de filme.
   Ela olhou para mim, com um sorrisinho misterioso.
   - Por acaso aqui tem algum porão escondendo coisas terríveis que eu não possa ver?
   Sim. Tinha. E ela não precisava ver. Eu queria dizer: “Não, não há nada para se ver por aqui”. Mas, outra vez, meu subconsciente me fez dizer:
   - Venha comigo – eu dei um sorriso sombrio.
   Ela deu um sorrisinho e foi atrás de mim. Descemos as escadas e fomos para o corredor. Eu abri um alçapão no chão. Entrei e comecei a descer os primeiro degraus. Luna veio atrás e segurou meu braço.
   - Estou com medo, Paul – ela disse. Eu sorri e fechei o alçapão.
   Ficamos no breu. Ela me abraçou, e eu me senti aquecido no porão frio. Descemos as escadas com cuidado, eu apertei o interruptor.
   A luz fraca iluminou tudo à nossa frente. Um baú de couro e uma estante com alguns vidrinhos. Luna olhou para o chão, com o cenho franzido. Então arregalou os olhos e apontou uma grande mancha vermelha-escura no chão.
   - Isso é sangue? – perguntou – Sangue de verdade?
   Eu confirmei com a cabeça.
   - Mas é antigo. – eu disse - Está seco.
   Luna começou a examinar o conteúdo dos vidrinhos.
   - São olhos. – disse ela – Olhos e tripas.
   Realmente, haviam vidrinhos com globos oculares ressecados e pedaços de intestinos e miolos. A pele de Luna se arrepiou e ela estremeceu. Eu segurei no ombro dela para reconfortá-la.
   - E aquele baú?
   Eu sorri, orgulhosamente.
   - Venha ver...
   Eu me ajoelhei na frente do baú, e ela do meu lado. Eu peguei a chave escondida em um sulco na parede e abri o cadeado. Levantei a tampa do baú.
   Luna admirou, terrificada, as dezenas de ossos que se empilhavam por lá. Ela estendeu a mão, mas hesitou.
   - Pode pegar – eu disse – não mordem.
   Comecei a mexer nos ossos. Luna pegou um pequenininho com a ponta dos dedos e o examinou.
   - São humanos? – perguntou.
   - Acho que sim. – respondi – Mas tem um que é humano com certeza absoluta.
   Tirei um crânio humano ao qual faltavam dois dentes. Luna olhou, boquiaberta.
   - Incrível – ela disse – É antigo, não é?
   - Claro – menti.
   Não era antigo. Na verdade, eu mesmo havia matado aquele cara. Eu tinha dez anos e estava voltando com minha mãe da padaria à noite. Aquele mendigo asqueroso começou a falar umas coisas... nojentas com ela e começou a arrancar suas roupas. Eu fiquei tão nervoso, que, com um pedregulho pontiagudo, atravessei o peito dele com uma força desumana. Eu nunca entendi de onde arranjo tanta força quando quero.
   - Por que sua família fez isso com essas pessoas? – perguntou Luna.
   - Uma família de loucos – respondi.
   Luna estava suando frio.
   - E-eu quero ir embora daqui – disse, e abraçou-me de novo.
   - Está bem – eu disse – vamos.
   Saímos do porão. Luna suspirou aliviada.
   - Amedrontador – falou – mas muito interessante. Sua casa tem coisas incríveis, Paul.
   Eu sorri. Ela sorriu também.
   - Mas agora eu tenho que ir – disse – Minha mãe está com febre. Tchau, Paullie.
   - Tchau.
   Paullie. Que apelido tosco.
 
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