segunda-feira, 20 de setembro de 2010 3 comentários

Paul cap 5

 Capítulo 5

Antes de dormir, repeti o mesmo ritual de sempre. Observei a rua pela janela da sala, depois subi para o meu quarto, tranquei a porta, me sentei na cama e fiquei olhando pro chão. Por horas e horas à fio. Até que, às 2 da manhã, senti sono e me deitei para dormir.
Tive um sonho estranho. Sonhei que eu era um anjo. E uma pessoa de capuz estava tentando me tirar do céu. Ela conseguiu, e me deixou na terra. Então, vi uma mulher desconhecida e, quando me dei conta, eu a estava matando. E, quando terminei de matá-la, apareceu a Luna com ódio nos olhos e me degolou. Então eu acordei.
Vesti qualquer coisa e desci para a cozinha. Peguei um pedaço de pizza na geladeira e saí de casa, sem olhar para a cara dos meus pais. Comi a pizza no caminho.
Quando cheguei na escola, me sentei numa das carteiras dos cantos do fundo. Depois que todos os alunos tinham chegado, Luna resolveu escolher a carteira. A última que sobrou. A na minha frente.
Tenho certeza que foi de propósito.
- Olá, Paul – disse ela – acho que seu humor não estava bom ontem.
Eu resmunguei algo sobre nunca estar.
- Mas creio que hoje você pode conversar como gente – disse ela, passando o dedo na carteira e cruzando as pernas.
- Não tenho nada a conversar com você.
- Claro que tem! Quais são seus gostos e sonhos? Suas preferências? Qualquer coisa!
Olhei para ela. Bufei.
- O que foi? - continuou – Não quer saber os meus gostos e sonhos?
Eu dei um sorriso antipático e respondi, contando a maior mentira de todas:
- Não tenho o menor interesse na sua vida.
- Humpf, isso não é educado.
Ela calou a boca por um momento. Mas antes que eu pudesse respirar aliviado, ela voltou a falar:
- Ah, vai, me conta... Qual é a sua cor preferida? Ou seu prato preferido? Ou melhor... - ela deu uma piscadela – de que garota você gosta aqui na sala?
Eu senti minha pele branca ganhar uma corzinha diante dessa pergunta. Ela riu.
- Ah, vai, conta! Só pra mim. Não sou fofoqueira.
Eu certamente não ia me ajoelhar na frente dela, dizer que estou tremendamente apaixonado e pedi-la em casamento, como eu queria fazer. Por isso, simplesmente falei:
- Não gosto de nenhuma garota aqui.
Ela me olhou por um momento, depois deu um sorriso amarelo e uma risadinha:
- Tudo bem, não tenho nada contra sua opção sexual, e...
- Não! Você entendeu errado! Não gosto de nenhuma garota e de nenhum garoto também.
Ela riu. Uma risada leve e contagiante. Não consegui evitar de abrir um sorrisinho.
- Você tem um sorriso bonito – disse ela.
Eu fechei a cara. Ela suspirou. O sinal tocou para a primeira aula.
domingo, 12 de setembro de 2010 5 comentários

Paul cap. 4

Capítulo 4
   Minha mãe entrou, sorridente, no quarto. Com uma bandeja. Deixou-a em cima da cama. Tinha chá e muffin. Fiz uma careta. Odeio doces. Minha mãe me deu um beijo na testa e desceu.
   Eu tomei o chá e dei os muffins pro diabrete.
   Ouvi risadinhas lá embaixo. Resolvi ir checar o que meus pais estavam fazendo. Sabe, eu não quero irmãos.
   Desci e vi meus pais abraçados, sentados no sofá. Pareciam felizes, como uma família de propaganda de peru de natal. Patético. Minha mãe deu uns beijinhos no rosto do meu pai e depois acenou para mim.
   Certamente ela tinha esquecido da briga. Como sempre.
   Minha mãe, Anita, tem forte problema de memória. Às vezes ela esquece de trancar a porta, de colocar sutiã, do próprio aniversário. Já se esqueceu de quem era quando eu tinha cinco anos. Ela está sempre avoada e com cara de idiota.
   Meu pai realmente a ama, mas perde a paciência fácil quando ela faz bobagens. Mas pelo menos ele nunca a agrediu fisicamente. Uma vez eu o vi morder o pescoço dela, mas ela parecia achar divertido. Graças a Deus, não ganhei um irmão depois.
   - Paul – disse minha mãe – Henry e eu resolvemos algo importante.
   Por favor. Não me diga que vou ter um irmão.
   - Vamos nos mudar – disse meu pai.
   Por um momento me senti aliviado. Depois percebi o que meu pai disse. E explodi:
   -O QUÊ? NÃO QUERO SAIR DAQUI!
   Subi para o meu quarto e bati a porta, deitando na cama e enfiando o travesseiro na cara.
   Minha mãe entrou no meu quarto e sentou-se do meu lado. Passou a mão no meu cabelo, deixando-os desarrumados. Meu pai não gosta quando ela faz isso.
   - Por que não quer se mudar, Paul?
   -Você sabe muito bem.
   - Por quê?
   - Por causa do Johnson, sua retardada.
   Ela ficou em silêncio, vasculhando a memória. Finalmente, seus olhos se iluminaram ao lembrar.
   - Ah sim, Johnson, o diabrete!
   - Ele precisa de mim.
   - Olha, querido, se ele sobreviveu tanto tempo até você encontra-lo, com certeza vai sobreviver até o próximo inquilino.
   - E se o próximo inquilino mata-lo?
   Minha mãe suspirou.
   - Tenho certeza que ele sabe se cuidar.
   Pensei por um instante. Por fim, afirmei com a cabeça. Minha mãe sorriu e saiu do quarto.

P.S.: Esqueci de comentar que o Henry é um personagem emprestado pela minha amiga Júlia Magalhães =) Sorry Ju
sexta-feira, 3 de setembro de 2010 4 comentários

Paul cap 3

Capítulo 3

   Quando finalmente acabou a aula, fui para casa.
   Moro numa casa grande, de madeira, em um bairro vazio e cinzento. Minha mãe queria se mudar, mas eu não. Sempre gostei de lá.
   Quando passei pela porta, já ouvi os berros do meu pai e o choro da minha mãe. Ele estava gritando com ela de novo. Era só eu virar as costas.
   Subi as escadas e o vi, em pé, gritando, e ela, ajoelhada, aos prantos. Uma xícara de café estava quebrada entre eles, e ela recolhia os cacos com as mãos. Sempre tão desastrada.
   - Pai – eu disse – Quantas vezes tenho que dizer que só eu posso fazer a mamãe chorar aqui?
   Meu pai me lançou um olhar raivoso. Minha mãe me olhou com olhos brilhantes.
   - Ah, meu bebê – disse ela, sorrindo.
   Ela se arrastou até mim e abraçou minhas pernas.
   - Muito obrigada por me defender, Paul – disse ela.
   Eu me abaixei e dei um tapa no rosto dela. Eu realmente não estava com humor para carinhos. Ela se deitou no chão e ficou chorando. Eu fui pro meu quarto.
   Meu quarto era pequeno, sem janelas, feito de madeira velha, que rangia a meus pés. A cama também era antiga. Mas o mais legal era o armário.
   Dentro dele tinha uma gaveta aonde morava um diabrete. Ele ficava preso lá, e eu podia deixar comida e brinquedos para ele. Meu pai não sabe quanto a ele, mas minha mãe sim. Eu sempre conto as coisas pra ela.
   Mesmo ela esquecendo na maioria das vezes.
   Eu me deitei na cama. Fiquei encarando o teto. Minha mãe me chamou para almoçar entre soluços.
   Desci para a sala. Havia uma sopa na mesa. Eu olhei para ela. Depois provei uma colher. Só então percebi o tanto que eu estava com fome. Engoli o resto da sopa. Depois voltei pro meu quarto, levando um pedaço de cenoura. Abri a gaveta do meu armário e dei a cenoura pro diabrete. Ele lambeu a cenoura, depois enfiou tudo pela goela e arrotou. Meu quarto ficou fedendo. Abri a porta pra entrar um ventinho.
   Depois me sentei na cama e fiquei olhando as digitais dos meus dedos.
 
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