quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Tinta Vermelha - Cap. 9

Capítulo 9

   Leonard acordou. Estava escuro e abafado. Tentou espreguiçar, mas não havia espaço para isso. Seus olhos rapidamente se acostumaram com o escuro. Estava num lugar apertado e acolchoado, fechado com uma tampa de madeira. Ele ficou um tempo sem entender nada. Mas então percebeu. Haviam se enganado. Pensaram que ele estava morto e o enterraram. Ou ele estava mesmo morto e era apenas um fantasma? E agora? Só havia uma coisa a fazer.
   - ME TIREM DAQUI! - berrou, e socou o tampo de madeira. Se surpreendeu quando o tampo voou e ele se viu livre.
   Se sentou e olhou em volta. Estava em uma pequena sala vazia. O que ele estava fazendo ali? Não conhecia aquele lugar.Se levantou e saiu do caixão.
   Ouviu passos. Se virou para a porta. Eleanor entrou em um passo apressado, linda e sorridente.
   Não. Não era Eleanor. Tinha os mesmos cabelos escuros e ondulados, mas todo o resto era completamente diferente. Os olhos daquela garota não eram de um verde intenso, e sim verde-água. Seu rosto era levemente mais arredondado e suas bochechas eram mais rosadas. Era mais baixa e tinha o corpo ligeiramente mais infantil. Seu sorriso era mais aberto e encantador. E sua expressão era doce e confortadora, enquanto a de Eleanor era sedutora e fria.
   - Boa noite - disse ela, com uma voz suave e doce. Era a voz que ele ouvira na noite anterior, a voz de quem o salvara. - Dormiu bem, querido?
   Leonard sorriu.
   - Você é linda - disse, e percebeu que sua voz estava mais aveludada do que antes.
   - Obrigada - agradeceu a garota, abrindo novamente seu sorriso branco.
   - Você me salvou.
   - Não podia deixar você morrer, Leonard.
   - Sabe meu nome?
   - Já tinha ouvido falar de você. O meu nome é Theodora. Prazer em conhecer você.
   Ela estendeu a mão, e Leonard viu seu pulso ainda não completamente cicatrizado. Segurou sua mão e a puxou para perto de si, pegando-a pela cintura.
   - Theodora... - disse - Você me salvou. Eu te amo, Theodora.
   Ela sorriu gentilmente. Leonard aproximou os lábios dos dela. Mas ela girou e se soltou de seu aperto, rindo.
   - Sabe, Leo... - disse - Estou com fome agora. Pode buscar alguns humanos para mim, querido? Depois, serei toda sua.
   - Faço qualquer coisa por você, Theodora - disse Leonard - Mas... Como assim buscar alguns humanos?
   - Bem. Eu te salvei! Então, você é um vampiro agora. Como eu! E ficaremos juntos por toda a eternidade, meu amor. Traga os humanos. Alguns para mim, alguns para você.
   Leonard balançou a cabeça afirmativamente, e saiu. Estava confuso. Há pouco tempo temia os vampiros mais do que tudo. Agora era um. E se apaixonara por uma vampira mais uma vez. Sorriu. "Não", pensou, "Theodora é diferente. Ela é tão doce. Além disso, sou um vampiro, por isso ela não vai poder se aproveitar de mim. Não tenho mais sangue humano!"
   Ele andou pelas ruas, procurando humanos que parecessem apetitosos. Viu um grupo de amigas rindo enquanto andavam pelas ruas. Quatro! Dariam um ótimo banquete. Duas para Theodora e duas para ele. Theodora ficaria tão feliz!
   Leonard caminhou até as garotas.
   - Boa noite - disse.
   - Boa noite - disseram elas, risonhas.
   - Bem... Eu estou meio solitário esses dias. Tenho poucos amigos, sabem? Queria convidá-las para me fazer uma visita lá em casa, posso mandar a cozinheira fazer uma... - sentiu o cheiro das garotas - deliciosa refeição para nós. Então podemos conversar e nos conhecer.
   As garotas deram risadinhas e se juntaram em círculo e fofocaram baixinho. Leonard ouviu pedaços da conversa como "coitadinho", "ele é lindo" e "devíamos ir". Então uma delas cochichou:
   - E se ele for perigoso?
   - Ah, sua boba! Estamos juntas! Ele não vai fazer mal para todas nós. Além disso, alguém tão bonito e bem arrumado assim não pode ser perigoso.
   "Bem arrumado?", pensou Leonard, "Minhas roupas estavam sujas do sangue da Theodora!".
   Ele olhou para suas roupas. Não usava seu terno velho e ensangüentado, mas uma roupa digna de um príncipe. Theodora havia trocado suas roupas enquanto dormia.
   - Vamos para sua casa, sim! - disseram as garotas por fim, sorridentes.
   Leonard sorriu, e elas soltaram suspiros.
   - Me sigam então - disse.
   Leonard as levou pelo caminho de volta, e pela primeira vez viu onde estava antes de sair para caçar. Era uma casa de pedra antiga, que estava abandonada havia anos.
   - Mas... - disse uma garota - essa casa não é a casa mal-assombrada?
   Leonard deu um riso forçado:
   - Você acredita no que esse povo diz? Moro aqui desde sempre - mentiu.
   Leonard entrou com as garotas.
   - Voltou, Leo? - disse Theodora, que o esperava sentada na mesa de jantar.
   - Sim. E trouxe nossas convidadas.
   Leonard trancou a porta.
   - Você é a cozinheira? - perguntou uma garota a Theodora.
   - Sim - respondeu ela - E os especiais da noite são... Vocês!
   Theodora sorriu, mostrando os dentes afiados. As garotas gritaram.

   Theodora limpava o sangue da boca e Leonard a observava, lambendo os dedos.
   - Estava delicioso, querido - disse ela, brincando com os cabelos de um cadáver.
   - Quem bom que gostou, Theodora - disse Leonard, e se aproximou de Theodora, segurando sua cintura - Agora, como prometeu, você é toda minha...
   - Anh, Leo, meu amor... Estou muito cansada agora, sabe? Preciso ficar quietinha. Por que não fica observando este palito de dente? Eu vou me deitar no sofá e descansar. Não esqueça de escovar os dentes antes de dormir. Dentes sujos não atraem vítimas.
   - Está bem - disse Leonard, e pegou o palito de dente.
   Se sentou em uma cadeira e olhou o palito de dente. Realmente, era um entretenimento e tanto. Podia contar todas as bactérias que jaziam nele. Ficou observando-o a noite inteira, até que a manhã começou a chegar, e ele correu para seu caixão. Claro, não se esqueceu de escovar os dentes antes.

3 comentários:

Letícia S. Costa disse...

Adorei a diversão com o palito de dente!

Luciana disse...

Meu Deus, tô me rasgando de rir aqui do negócio do palito de dente!hahaha
E esse Leo é mó carente, viu a Theodora e amou na hora!
Muito boa a história!

pati disse...

kkkkk Ele é bobão d+!

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