domingo, 24 de janeiro de 2010

Tinta Vermelha - Cap. 4

Capítulo 4

   Leonard abriu os olhos. Se espreguiçou e olhou para o outro lado da cama de sua mãe, procurando o rosto de Eleanor. Estava vazio. Ela havia ido embora. Será que ela não gostava mais dele? Ele não agradou? Ou tudo que passaram na noite anterior havia sido apenas um belo sonho?
   Mas logo ele deduziu que não fora um sonho. O doce perfume de Eleanor ainda pairava no ar. O travesseiro onde ela havia se deitado ainda estava delicadamente amassado, e havia um fio negro de seus cabelos no colchão.
   Ele se levantou e olhou o relógio. Eram onze da manhã. Ele havia se atrasado para o trabalho. Suspirou. Inventaria uma desculpa qualquer para seu Joaquim, o dono do mercado onde trabalhava. Era um bom homem, iria desculpá-lo.
   Tomou um banho, se vestiu e foi para o trabalho, memorizando uma mentira: ele havia atrasado pois havia visitado uma prima doente.

   Tudo correu como planejado. Seu Joaquim acreditou em Leonard, e não o puniu de nenhuma forma pelo atraso. Ao sair do trabalho, Leonard foi para a aula de pintura, ansioso por ver Eleanor novamente.
   Ao chegar lá, olhou para a cadeira onde Eleanor sempre se sentava. Lá estava ela, seus cabelos espessos encobrindo suas costas. Leonard a chamou. Ela se virou. Leonard teve um sobressalto.
   Aquela era Eleanor, mas estava diferente. Sua pele sempre fora branca, mas um branco lindo, não aquele pálido acinzentado e doentio. Sua boca vermelha estava completamente sem cor e ressecada, como se não bebesse água a dias. Seus olhos estavam fundos e não brilhavam como sempre. Sua pele estava murcha e se colava com os ossos do rosto, deixando sua face cadavérica. Estava magra como uma anoréxica. Parecia um cadáver ao todo.
   - O que houve com você, Eleanor? - perguntou Leonard, preocupado.
   - Estou apenas com um pouco de fome - ela respondeu, com voz rouca e fraca.
   - Pois precisa comer logo - disse ele. Pegou uma maçã que havia pegado no mercado e estendeu a ela.
   - Não, eu como depois.
   - Você vai passar mal.
   - Acredite, já estou passando.
   Leonard se calou, e se virou para sua tela em branco. Ele não tinha idéias para preencher aquela tela. Precisava de alguma idéia. Algo sobre sua vida, quem sabe. Mas nada ele encontrava em seus dias monótonos.
   Então teve uma idéia. Pintaria algo que estava preenchendo sua vida durante os últimos dias, algo que ele prezava mais do que qualquer coisa naquele momento.
   Eleanor.
   Sem hesitar, ele pegou um lápis e começou a desenhar o esboço de sua pintura na tela. Desenhou o formato de seu rosto, seu nariz, sua boca, seus cabelos, o formato de seus olhos. Mas, antes de começar a pintar, a aula acabou.
   - Guardem suas pinturas no armário e terminem segunda-feira - disse o professor - Bom fim-de-semana para todos.
   Leonard foi embora, lançando um último olhar de pena para Eleanor.

   Eleanor sentia a garganta seca e queimando. Precisava de sangue o mais rápido possível. Se sentia oca e fraca. E feia. As pessoas na rua a olhavam como se vissem um morto-vivo. "O que de certo modo eu sou", pensou ela.
   Virou uma esquina, escapando do cheiro forte de sangue humano na praça pública. Precisava achar alguém com quem ficasse à sós. Não queria que ninguém a visse bebendo sangue. Avistou uma garota de aproximadamente 15 anos. Se aproximou dela vagarosamente, sem olhar para ela. Ao passar ao lado dela, a empurrou para a parede e sugou todo seu sangue. A garota deu um grito silencioso antes de morrer. Eleanor a soltou e ela caiu no chão.
   Eleanor se sentia bem mais forte agora. Pegou um saco de batatas a seu lado, e colocou a garota inteira dentro deste. Então começou a arrastá-lo pela rua deserta em direção à floresta para dar sumiço no corpo.
   Sentiu cheiro de sangue humano. Era um garoto de 13 anos, certamente morador de rua, e parecia faminto. Ele olhou para o saco de batatas com os olhos cheios de desejo. Certamente, ele pensou que em um saco de batatas só poderia haver batatas. Ele diminuiu o passo. Mas, ao chegar perto de Eleanor, deu um impulso e, numa rapidez inimaginável para um garotinho, arrancou o saco das mãos de Eleanor, que, ainda não muito forte, não pôde detê-lo de cara.
   Correu atrás dele. "ME DEVOLVA!", "VOLTE AQUI!", "NÃO ABRA ISSO!", gritava durante a perseguição. Mas o menino não deu ouvidos.
   O garoto sumiu da vista de Eleanor. Mas ela sentiu seu cheiro e o encontrou num beco. Observou, silenciosa. Ele lambia os beiços. Abriu o saco devagar e despejou o conteúdo no chão. Ao ver o corpo, soltou um gritinho, depois se encostou na parede, paralisado. Eleanor sorriu.
   - Te avisei, não? - disse ela - Falei para você me devolver este saco. Disse aquilo para seu próprio bem. Agora, você sabe demais.
   O garoto arregalou os olhos.
   - Por favor - sussurou - Não conto para ninguém... Não conto que você é a assassina que todos têm procurado por décadas.
   - Não posso confiar em HUMANOS - ela disse, e mostrou os dentes afiados com um sorriso.
   - O q-que quer dizer com isso? - gaguejou o menino.
   Eleanor avançou no garoto para se servir de mais uma refeição.

1 comentários:

pati disse...

Gente, quanto sangue!!!!!! E que menino danado!

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