domingo, 31 de janeiro de 2010 3 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 11

Capítulo 11

   Eleanor acabava de chegar em casa depois de seu jantar de sempre. Planejava arrumar um pouco a casa, pelo menos tirar as teias de aranha dos cantos das paredes. Mas, antes que chegasse ao depósito para pegar um espanador, ouviu um barulho e se virou. Um homem entrava em sua casa pela janela. Ela não o reconheceu só de olhar. Ele era alto e forte, branco, bonito, usava trajes antigos. Certamente um vampiro. Observou-o melhor. Tinha cabelos castanhos sedosos, que formavam um topete encantador. Sorriu para ela com seus lábios finos e macios, e mostrou um par de caninos pontiagudos. Ela então olhou para seus olhos. Eram penetrantes, de uma cor azul esverdeada. Eleanor reparou no formato do rosto do rapaz, o seu nariz fino, suas bochechas que ela havia acariciado tantas vezes, e finalmente o reconheceu. Leonard. Eleanor sentiu o próprio coração frio acelerar e se aquecer ao vê-lo duas vezes mais lindo que antes.
   - Leonard? - disse ela, sorrindo - Você está vivo? Que ótimo. Sabia que você ficou muito mais bonito como vampiro?
   Ele não respondeu. Apenas se aproximou dela. Pegou-a pelos braços e a empurrou para a parede, prendendo-a lá e se aproximando de seu rosto. A expressão de Leonard, então, se franziu em uma de puro ódio. Eleanor arregalou os olhos. Nunca o vira assim. Ele rosnou e falou, entredentes:
   - Você bebeu meu sangue. Agora eu vou beber o SEU.
   Dizendo isso, ele avançou no pescoço dela e a mordeu. Ela sentiu os dentes de Leonard penetrarem em sua pele, suaves e gentis como um beijo. Ela sorriu, o abraçou e o mordeu de volta.
   Ele sugava o sangue dela, e ela sugava de volta, em uma troca sem fim. Fecharam os olhos. Não tinham noção do tempo. Continuariam naquele círculo vicioso para toda a eternidade, se não fossem interrompidos por uma voz que Eleanor reconheceria em qualquer lugar.
   - E então, Leonard? Ainda não a matou? - perguntou a voz suave que Eleanor tanto odiava.
   Leonard soltou Eleanor, que olhou para a garota, que estava, como sempre, com sua expressão convencida. Não demorou muito para Eleanor reconhecê-la. Havia décadas que não via aquelas sobrancelhas curvadas para ela, mas mesmo assim ela se lembrava perfeitamente dela.
   - Você por aqui, Theodora? - disse, como se encontrasse uma velha amiga.
   Leonard a olhou, confuso:
   - Vocês se conhecem?
   - Claro - respondeu Eleanor - Por que eu não conheceria minha prima?
sábado, 30 de janeiro de 2010 3 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 10

Capítulo 10

   Leonard acordou e foi para a sala de estar. Theodora o esperava, sentada no sofá.
   - Boa noite - disse ela - Vamos sair hoje.
   - Para onde? - perguntou Leonard.
   - Para sua casa. Talvez você queira pegar alguns objetos seus. Ou talvez dinheiro...
   - Sim, claro. Vamos lá. Mas... Como vamos entrar?
   - Achei a chave no paletó que você estava usando quando te encontrei na floresta. Mesmo se não tivesse achado, entraríamos pela janela.
   Assim, os dois foram juntos até a casa de Leonard. Ele passou os olhos pela casa, procurando algo para levar. Pegou um retrato onde ele tinha 5 anos e estava junto com seus pais. Depois foi para seu quarto. Juntou suas melhores roupas para levar e olhou para as paredes, que estavam recheadas de pinturas suas. Ele não queria levar nenhuma delas. Apenas aquela bela pintura de Eleanor, que ele havia terminado cinco dias antes do casamento. Ele a observou, maravilhado. mas então percebeu que estava faltando alguma coisa naquela pintura.
   Pegou um pote de tinta vermelha e um pincel. Molhou o pincel na tinta e, com ele, pintou um feixe de sangue escorrendo pelo queixo de Eleanor. Observou, orgulhoso. "Muito mais realista agora", pensou.
   Achou duas malas grandes e as encheu com tudo o que queria levar.
   - Vamos embora - disse ele a Theodora.
   - Está levando dinheiro? - perguntou ela.
   - Não. Para que eu precisaria?
   - Podemos precisar um dia. Leve.
   - Está bem.
   Ele foi até o quarto de sua mãe e pegou o dinheiro, que se escondia em um cofre atrás do armário. Enfiou-o em um saco de papel e voltou para a sala.
   - Pronto - disse.
   - Muito bem... - disse Theodora - Deixa que eu mesma o levo.
   Theodora pegou o saco de papel e foram embora.

   Leonard pendurou o quadro em seu quarto. Depois, foi até a sala pegar uma mesinha de canto, colocou em seu quarto e pôs a foto dele com seus pais em cima. Admirou sua nova decoração. Theodora entrou no quarto.
   - Quem é essa no quadro, Leonard? - perguntou ela.
   - Eleanor - disse ele.
   - Por acaso foi ela quem te deixou morrendo na floresta?
   - Sim.
   - Não devia deixar isso em branco, Leo.
   - Como assim?
   - Devia procurá-la. Devia se vingar.
   - Me vingar?
   - Sim. Mate-a.
   - Mas eu não morri.
   - Pior do que isso, você sofreu. Sentiu dor. Se ela tivesse te matado, não sentiria.
   - Tem razão, Theodora. Você sempre tem razão.
   Theodora sorriu.
   - Então, o que está esperando? Procure-a, Leonard.
   - Sim. Eu vou.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 3 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 9

Capítulo 9

   Leonard acordou. Estava escuro e abafado. Tentou espreguiçar, mas não havia espaço para isso. Seus olhos rapidamente se acostumaram com o escuro. Estava num lugar apertado e acolchoado, fechado com uma tampa de madeira. Ele ficou um tempo sem entender nada. Mas então percebeu. Haviam se enganado. Pensaram que ele estava morto e o enterraram. Ou ele estava mesmo morto e era apenas um fantasma? E agora? Só havia uma coisa a fazer.
   - ME TIREM DAQUI! - berrou, e socou o tampo de madeira. Se surpreendeu quando o tampo voou e ele se viu livre.
   Se sentou e olhou em volta. Estava em uma pequena sala vazia. O que ele estava fazendo ali? Não conhecia aquele lugar.Se levantou e saiu do caixão.
   Ouviu passos. Se virou para a porta. Eleanor entrou em um passo apressado, linda e sorridente.
   Não. Não era Eleanor. Tinha os mesmos cabelos escuros e ondulados, mas todo o resto era completamente diferente. Os olhos daquela garota não eram de um verde intenso, e sim verde-água. Seu rosto era levemente mais arredondado e suas bochechas eram mais rosadas. Era mais baixa e tinha o corpo ligeiramente mais infantil. Seu sorriso era mais aberto e encantador. E sua expressão era doce e confortadora, enquanto a de Eleanor era sedutora e fria.
   - Boa noite - disse ela, com uma voz suave e doce. Era a voz que ele ouvira na noite anterior, a voz de quem o salvara. - Dormiu bem, querido?
   Leonard sorriu.
   - Você é linda - disse, e percebeu que sua voz estava mais aveludada do que antes.
   - Obrigada - agradeceu a garota, abrindo novamente seu sorriso branco.
   - Você me salvou.
   - Não podia deixar você morrer, Leonard.
   - Sabe meu nome?
   - Já tinha ouvido falar de você. O meu nome é Theodora. Prazer em conhecer você.
   Ela estendeu a mão, e Leonard viu seu pulso ainda não completamente cicatrizado. Segurou sua mão e a puxou para perto de si, pegando-a pela cintura.
   - Theodora... - disse - Você me salvou. Eu te amo, Theodora.
   Ela sorriu gentilmente. Leonard aproximou os lábios dos dela. Mas ela girou e se soltou de seu aperto, rindo.
   - Sabe, Leo... - disse - Estou com fome agora. Pode buscar alguns humanos para mim, querido? Depois, serei toda sua.
   - Faço qualquer coisa por você, Theodora - disse Leonard - Mas... Como assim buscar alguns humanos?
   - Bem. Eu te salvei! Então, você é um vampiro agora. Como eu! E ficaremos juntos por toda a eternidade, meu amor. Traga os humanos. Alguns para mim, alguns para você.
   Leonard balançou a cabeça afirmativamente, e saiu. Estava confuso. Há pouco tempo temia os vampiros mais do que tudo. Agora era um. E se apaixonara por uma vampira mais uma vez. Sorriu. "Não", pensou, "Theodora é diferente. Ela é tão doce. Além disso, sou um vampiro, por isso ela não vai poder se aproveitar de mim. Não tenho mais sangue humano!"
   Ele andou pelas ruas, procurando humanos que parecessem apetitosos. Viu um grupo de amigas rindo enquanto andavam pelas ruas. Quatro! Dariam um ótimo banquete. Duas para Theodora e duas para ele. Theodora ficaria tão feliz!
   Leonard caminhou até as garotas.
   - Boa noite - disse.
   - Boa noite - disseram elas, risonhas.
   - Bem... Eu estou meio solitário esses dias. Tenho poucos amigos, sabem? Queria convidá-las para me fazer uma visita lá em casa, posso mandar a cozinheira fazer uma... - sentiu o cheiro das garotas - deliciosa refeição para nós. Então podemos conversar e nos conhecer.
   As garotas deram risadinhas e se juntaram em círculo e fofocaram baixinho. Leonard ouviu pedaços da conversa como "coitadinho", "ele é lindo" e "devíamos ir". Então uma delas cochichou:
   - E se ele for perigoso?
   - Ah, sua boba! Estamos juntas! Ele não vai fazer mal para todas nós. Além disso, alguém tão bonito e bem arrumado assim não pode ser perigoso.
   "Bem arrumado?", pensou Leonard, "Minhas roupas estavam sujas do sangue da Theodora!".
   Ele olhou para suas roupas. Não usava seu terno velho e ensangüentado, mas uma roupa digna de um príncipe. Theodora havia trocado suas roupas enquanto dormia.
   - Vamos para sua casa, sim! - disseram as garotas por fim, sorridentes.
   Leonard sorriu, e elas soltaram suspiros.
   - Me sigam então - disse.
   Leonard as levou pelo caminho de volta, e pela primeira vez viu onde estava antes de sair para caçar. Era uma casa de pedra antiga, que estava abandonada havia anos.
   - Mas... - disse uma garota - essa casa não é a casa mal-assombrada?
   Leonard deu um riso forçado:
   - Você acredita no que esse povo diz? Moro aqui desde sempre - mentiu.
   Leonard entrou com as garotas.
   - Voltou, Leo? - disse Theodora, que o esperava sentada na mesa de jantar.
   - Sim. E trouxe nossas convidadas.
   Leonard trancou a porta.
   - Você é a cozinheira? - perguntou uma garota a Theodora.
   - Sim - respondeu ela - E os especiais da noite são... Vocês!
   Theodora sorriu, mostrando os dentes afiados. As garotas gritaram.

   Theodora limpava o sangue da boca e Leonard a observava, lambendo os dedos.
   - Estava delicioso, querido - disse ela, brincando com os cabelos de um cadáver.
   - Quem bom que gostou, Theodora - disse Leonard, e se aproximou de Theodora, segurando sua cintura - Agora, como prometeu, você é toda minha...
   - Anh, Leo, meu amor... Estou muito cansada agora, sabe? Preciso ficar quietinha. Por que não fica observando este palito de dente? Eu vou me deitar no sofá e descansar. Não esqueça de escovar os dentes antes de dormir. Dentes sujos não atraem vítimas.
   - Está bem - disse Leonard, e pegou o palito de dente.
   Se sentou em uma cadeira e olhou o palito de dente. Realmente, era um entretenimento e tanto. Podia contar todas as bactérias que jaziam nele. Ficou observando-o a noite inteira, até que a manhã começou a chegar, e ele correu para seu caixão. Claro, não se esqueceu de escovar os dentes antes.
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Tinta Vermelha - Cap. 8

Capítulo 8

   Leonard sabia que estava prestes a morrer. E estava absurdamente triste. Não por estar morrendo, mas por quem havia bebido seu sangue. Eleanor, sua Eleanor... Como ela pôde fazer aquilo com ele? Ela nunca o amou? Só queria seu sangue desde o princípio? E o deixou ali, definhando, ao invés de terminar com sua dor de uma vez? Para quê?
   Ele ouviu passos no mato. Talvez fosse coisa de sua cabeça. Ninguém o socorreria. Ninguém sabia que estava lá. E mesmo se soubessem, como ajudá-lo? Era impossível. Ele iria morrer, e nada poderia salvá-lo.
   Sentiu uma mão fria em seu braço. Abriu os olhos. Mesmo com a visão embaçada, viu longos cabelos negros caindo em seu rosto.
   - E-Eleanor? - chamou, mas sua voz quase não era audível.
   Sentiu a mão gelada em seu rosto, depois viu um brilho branco que devia ser um sorriso. Fechou os olhos de novo. Eleanor não voltaria. Era uma miragem.
   Ouviu um barulho de carne sendo rasgada, e uma gota de um líquido quente caiu em sua boca. Ele sentiu gosto de sangue. Então, sentiu o pulso da pessoa que o socorria em sua boca, o sangue escorreu pelo seu queixo e se espalhou pela sua língua.
   - Beba - ouviu uma voz suave.
   Leonard hesitou, mas começou a sugar levemente o sangue quente que o fortalecia. Continuou assim por bastante tempo. Não sabia exatamente quanto, mas pareceu uma eternidade. Rosnou quando o pulso foi retirado de sua boca, e a voz suave disse "já chega". Leonard abriu os olhos e tentou se levantar para alcançar o sangue da garota de novo, mas ela o deitou e pediu que dormisse, acariciando seu rosto.
   Ele se sentia calmo agora, e cansado. Realmente precisava dormir. Assim, fechou os olhos e caiu em sono profundo.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 5 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 7

Capítulo 7

   Dez dias depois, Leonard esperava por Eleanor na frente de um pequeno altar montado no jardim de sua casa. Era uma bela noite estrelada. Uma brisa leve sacudia as folhas das árvores. Naquele jardim haviam apenas Leonard e o padre. Não haviam convidados, pois Eleanor dizia não ter parentes próximos, e não houve tempo para preparar nada. Leonard usava um terno de segunda mão, que fora de seu pai. Não teria nada especial no casamento. Mesmo assim, Leonard não se cabia de felicidade, principalmente quando Eleanor saiu de dentro de casa.
   Ela usava um vestido branco, com uma enorme saia rodada e uma faixa vermelha cobrindo a cintura. Não usava véu, apenas um arranjo de rosas vermelhas. Usava também um chamativo batom vermelho. Andou na direção de Leonard, com um sorriso decidido no rosto.
   O casamento correu normalmente. Leonard beijou a noiva, e ela pediu ao padre que os deixasse a sós no jardim.
   - Bem... - disse Leonard - Não é melhor entrarmos em casa antes?
   - Não, Leonard - discordou Eleanor - Tenho algo a contar para você. Sobre o jeito estranho como tenho agido desde sempre.
   - Ah, claro. Sobre sua alergia ao sol e tudo aquilo?
   - Sim - disse ela - Você nunca me viu jantar. Se visse, ficaria horrorizado. Nunca me viu durante o dia. Se me visse, seria a última vez que me veria. Também nunca me viu dormir de verdade. Pois durmo em horário diferente do seu. E como explicar meus caninos afiados?
   Leonard ficou calado, apenas a fitando.
   - Pois bem - continuou ela - Tudo tem uma resposta simples e óbvia. Estou nessa cidade a décadas e não envelheço. E há décadas pessoas têm desaparecido toda noite por aqui...
   - O que está insinuando? - perguntou Leonard.
   - Pense bem, Leonard. Junte os pontos. Não pode ser tão idiota assim.
   Leonard pensou.
   - Leonard, sou um vampiro - contou Eleanor, antes que ele deduzisse sozinho.
   Leonard recuou.
   - Um vampiro... - sussurrou - E foi você quem matou minha mãe. FOI VOCÊ!
   - Leonard, eu...
   - FOI VOCÊ!
   Leonard tinha lágrimas nos olhos:
   - VOCÊ É UM MONSTRO! NUNCA MAIS CHEGUE PERTO DE MIM!
   Dizendo isso, Leonard correu para longe, penetrou na floresta, correndo o mais rápido que podia. Tropeçou e caiu, arfando. Exausto, se sentou perto de uma árvore. "Estou longe o suficiente dela", pensou.
   - Você não vai conseguir fugir, Leonard - disse uma voz em seu ouvido.
   Leonard se virou, e lá estava Eleanor sentada a seu lado. Ela sorriu para ele, mostrando suas presas. Aquele sorriso que antes era maravilhoso, para Leonard se tornou a coisa mais repugnante e assustadora que ele já vira. Ele recuou, caindo de costas para o chão. Ela rapidamente saltou sobre ele, prendendo-o em seus braços.
   - Estou muito brava com você, Leo - disse Eleanor - Precisa de uma lição.
   Dizendo isso, ela se abaixou vagarosamente para o pescoço de Leonard, sentindo o seu cheiro doce e curtindo aquele momento que esperava havia tanto tempo.
   - Eleanor... - ele disse.
   Ela sorriu e mordeu a pele macia do pescoço de Leonard. Sugou o sangue delicioso de Leonard, enquanto ele enfiava as unhas em suas costas, lutando desesperadamente para viver. Mas seu aperto foi enfraquecendo cada vez mais. Eleanor estava quase terminando de drenar o sangue de Leonard, mas parou.
   Por algum motivo, Eleanor se sentia mal. Olhou para o rosto de Leonard. Ele estava pálido, e seu rosto expressava pura agonia. Seus olhos estavam apertados. Ao perceber que ela havia parado, seu rosto começou a relaxar. Ele ainda estava vivo, mas por um fio. Não duraria muito tempo. Ela poderia acabar com seu sofrimento de uma vez, mas não se sentia bem para isso.
   Eleanor sentiu uma pontada de arrependimento no peito. Ele morreria logo. Eleanor se levantou e foi para casa, deixando-o ali, curtindo seus últimos segundos de vida.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010 2 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 6

Capítulo 6

   No dia seguinte, Eleanor foi visitar Leonard à noite. Leonard abriu a porta, os olhos inchados de tanto chorar.
   - Eu soube de tudo pelos jornais - disse Eleanor - Sinto muito pela sua mãe.
   Leonard abraçou Eleanor e começou a chorar baixinho.
   - Nunca imaginei que minha mãe poderia ser uma daquelas pessoas desaparecidas - disse - E não sei como vou viver agora. Ela era quem sustentava a casa. Meu emprego não dá muito dinheiro.
   Eleanor suspirou.
   - Preciso de você mais do que nunca agora - disse Leonard, acariciando o rosto de Eleanor.
   - Vou te ajudar, Leo. Podemos nos casar logo, assim você não fica sozinho.
   Leonard sorriu levemente:
   - Eu te amo, Eleanor.
   Eleanor ficou calada. Depois disse:
   - Sim, eu sei.
   - Você também me ama?
   - Claro.
   - Vamos nos casar ainda neste mês! Nem que seja uma cerimônia simples.
   - Vamos nos casar no jardim. E a lua-de-mel pode ser na sua casa mesmo.
   - Sim, pode.
   Ficaram em silêncio por um momento.
   - O enterro simbólico será amanhã de manhã – disse Leonard – Quer ir?
   - Sabe que não posso, Leo. Desculpe-me.
   - Tudo bem, eu entendo.
   Silêncio.
   - Pode passar a noite aqui comigo? – perguntou Leonard de novo – Não quero ficar sozinho. Vou me sentir mal.
   - Claro. Posso ficar aqui por um tempo. Vou ficar com você até você pegar no sono.
   - Obrigado.
   Pouco depois, Leonard estava deitado, e Eleanor sentada ao seu lado, acariciando seus cabelos.
   - Vai ficar tudo bem – disse ela – Um dia você não vai se sentir tão mal assim. Claro que nunca vai ser uma lembrança feliz, e você não vai deixar de se importar completamente. Demoraria séculos para isso. Sei muito bem como é. Afinal, sou órfã também. Você vai melhorar. Tudo vai melhorar, você vai ver...
   Eleanor parou de falar ao perceber que Leonard estava dormindo. Deu um beijo na testa dele e foi embora.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 4 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 5

Capítulo 5

   Leonard chegou na aula de pintura dois dias depois, e ficou aliviado ao ver Eleanor saudável e linda como sempre costumava ser. No dia passado, ele havia tomado uma decisão importante. E ia decidir aquilo com Eleanor depois da aula.
   E assim ele fez. No final da aula, foi até Eleanor, com o coração saltando.
   - Eleanor... - chamou.
   - Sim - Ela se virou para ele, sorrindo.
   - Eu... eu... bem...
   - Diga, Leo.
   Ele esfregou as mãos suadas no paletó.
   - Queria pedir sua mão em casamento.
   Eleanor ficou completamente imóvel.
   - C-casar?
   - É. Quero ficar com você para sempre. Até ficarmos velhinhos e morrermos.
   - Não dá para eu ficar velhinha e morrer com você.
   - Isso é um não?
   - Não!
   - Não?
   - Não é um não.
   - Ah. Então é um sim?
   - Vou pensar.
   - Está bem. Amanhã você fala.
   - Não, eu vou pensar agora mesmo.
   Eleanor pôs o dedo no queixo, em pose pensativa. Deu um sorrisinho e disse:
   - Sim, eu me caso.
   Leonard quase desmaiou de emoção, mas se segurou, pois não é muito elegante.
   - E-então - gaguejou - Quando vamos nos casar?
   - Quando você quiser. Desde que seja de noite, antes da meia-noite.
   - Ótimo.
   - Mas por que está sendo tão direto? Ainda nem me apresentou ao seus pais.
   - É verdade... Me desculpe. Minha mãe volta de viagem amanhã. Pode nos visitar à noite.
   Eleanor sorriu.
   - Claro. Irei.
   - Ótimo.

   Assim, no dia seguinte, Eleanor encontrou Leonard na praça e a levou para sua casa.
   A mãe de Leonard, Louise, esperava sentada no sofá, e na mesinha de café haviam biscoitinhos e chá. Ela sorriu, acolhedora, para Eleanor, que sorriu(de boca fechada) de volta.
   - Boa noite - disse Eleanor.
   - Boa noite. Você é Eleanor? Leonard me falou sobre você hoje.
   - Sim, sou eu mesma.
   - Eu sou Louise, mãe do Leonard. Ele me disse que estão namorando.
   - Estávamos.
   - Terminaram?
   - Não. Agora estamos noivos.
   Louise arregalou os olhos.
   - Noivos?
   - Sim.
   - Já estava na hora do meu Leozinho arranjar uma boa pretendente. Mas não estão muito novos? Ele só tem vinte anos...
   - E eu tenho 19 - mentiu Eleanor - Mas não importa. Podemos esperar um ano ou mais.
   Leonard se sobressaltou:
   - Não, não podemos esperar tanto assim!
   Eleanor o olhou, estranhando:
   - Mas por quê?
   - Bem...
   Leonard puxou Eleanor para perto e cochichou em seu ouvido:
   - Tenho medo de que você esteja grávida.
   Ela riu:
   - Não creio que isso seja possível.
   - Nunca se sabe! E se estiver? Não quero que fique mal falada.
   - Está bem. Vamos nos casar logo então.
   - Por que estão de segredinhos? - perguntou Louise.
   - Não é nada, mãe. Está decidido. Vamos nos casar ainda este ano!
   - Ah, meu filhinho... Vai me deixar tão cedo?
   - Vou te visitar todos os dias, mãe, não se preocupe.
   - Está bem então.
   Os três conversaram por mais um tempo, até umas oito horas.
   - Preciso ir - disse Eleanor - Vou comprar pasta de dentes e depois tenho um compromisso importante.
   - Esta bem - disse Leonard - Adeus.
   - Adeus - disse Eleanor, e saiu.
   - Filho - disse Louise - é melhor você ir dormir, senão chega atrasado ao trabalho mais uma vez, e não vou confirmar mais nenhuma mentira que você conta para o seu Joaquim.
   - Está bem. Boa noite, mãe.
   - Boa noite.
   Leonard foi para o quarto. Louise esperou um tempo, depois se levantou e saiu de casa. Queria comprar presentes de noivado surpresa para Leonard e Eleanor. Andou pelas ruas, procurando alguma loja de jóias ou de roupas aberta. Entrou em uma rua escura e vazia. Continuou, tranquilamente. Ouviu um silvo e um "Tump!" seco. Olhou eu volta. Não viu nada. Continuou. Ouviu passos. Se virou. Havia um vulto escuro que andava em direção a ela. Apertou o passo e continuou. Os passos ficaram mais próximos. Louise começou a correr. Mas de nada adiantou. Seu braço foi agarrado e torcido para trás. Ela ia gritar, mas uma mão delicada tampou sua boca. Sentiu um hálito frio no pescoço. Se remexeu bruscamente e conseguiu sair do aperto, mas foi jogada no chão, e o vulto, que tinha longos cabelos negros que pinicavam o rosto de Louise, pulou sobre ela e a imobilizou. Louise não podia reagir. A mulher que a segurava sorriu, e uma fileira de dentes brancos e pontudos refletiram à fraca luz da lua. Ela abriu a boca e rapidamente avançou para o pescoço de Louise.
domingo, 24 de janeiro de 2010 1 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 4

Capítulo 4

   Leonard abriu os olhos. Se espreguiçou e olhou para o outro lado da cama de sua mãe, procurando o rosto de Eleanor. Estava vazio. Ela havia ido embora. Será que ela não gostava mais dele? Ele não agradou? Ou tudo que passaram na noite anterior havia sido apenas um belo sonho?
   Mas logo ele deduziu que não fora um sonho. O doce perfume de Eleanor ainda pairava no ar. O travesseiro onde ela havia se deitado ainda estava delicadamente amassado, e havia um fio negro de seus cabelos no colchão.
   Ele se levantou e olhou o relógio. Eram onze da manhã. Ele havia se atrasado para o trabalho. Suspirou. Inventaria uma desculpa qualquer para seu Joaquim, o dono do mercado onde trabalhava. Era um bom homem, iria desculpá-lo.
   Tomou um banho, se vestiu e foi para o trabalho, memorizando uma mentira: ele havia atrasado pois havia visitado uma prima doente.

   Tudo correu como planejado. Seu Joaquim acreditou em Leonard, e não o puniu de nenhuma forma pelo atraso. Ao sair do trabalho, Leonard foi para a aula de pintura, ansioso por ver Eleanor novamente.
   Ao chegar lá, olhou para a cadeira onde Eleanor sempre se sentava. Lá estava ela, seus cabelos espessos encobrindo suas costas. Leonard a chamou. Ela se virou. Leonard teve um sobressalto.
   Aquela era Eleanor, mas estava diferente. Sua pele sempre fora branca, mas um branco lindo, não aquele pálido acinzentado e doentio. Sua boca vermelha estava completamente sem cor e ressecada, como se não bebesse água a dias. Seus olhos estavam fundos e não brilhavam como sempre. Sua pele estava murcha e se colava com os ossos do rosto, deixando sua face cadavérica. Estava magra como uma anoréxica. Parecia um cadáver ao todo.
   - O que houve com você, Eleanor? - perguntou Leonard, preocupado.
   - Estou apenas com um pouco de fome - ela respondeu, com voz rouca e fraca.
   - Pois precisa comer logo - disse ele. Pegou uma maçã que havia pegado no mercado e estendeu a ela.
   - Não, eu como depois.
   - Você vai passar mal.
   - Acredite, já estou passando.
   Leonard se calou, e se virou para sua tela em branco. Ele não tinha idéias para preencher aquela tela. Precisava de alguma idéia. Algo sobre sua vida, quem sabe. Mas nada ele encontrava em seus dias monótonos.
   Então teve uma idéia. Pintaria algo que estava preenchendo sua vida durante os últimos dias, algo que ele prezava mais do que qualquer coisa naquele momento.
   Eleanor.
   Sem hesitar, ele pegou um lápis e começou a desenhar o esboço de sua pintura na tela. Desenhou o formato de seu rosto, seu nariz, sua boca, seus cabelos, o formato de seus olhos. Mas, antes de começar a pintar, a aula acabou.
   - Guardem suas pinturas no armário e terminem segunda-feira - disse o professor - Bom fim-de-semana para todos.
   Leonard foi embora, lançando um último olhar de pena para Eleanor.

   Eleanor sentia a garganta seca e queimando. Precisava de sangue o mais rápido possível. Se sentia oca e fraca. E feia. As pessoas na rua a olhavam como se vissem um morto-vivo. "O que de certo modo eu sou", pensou ela.
   Virou uma esquina, escapando do cheiro forte de sangue humano na praça pública. Precisava achar alguém com quem ficasse à sós. Não queria que ninguém a visse bebendo sangue. Avistou uma garota de aproximadamente 15 anos. Se aproximou dela vagarosamente, sem olhar para ela. Ao passar ao lado dela, a empurrou para a parede e sugou todo seu sangue. A garota deu um grito silencioso antes de morrer. Eleanor a soltou e ela caiu no chão.
   Eleanor se sentia bem mais forte agora. Pegou um saco de batatas a seu lado, e colocou a garota inteira dentro deste. Então começou a arrastá-lo pela rua deserta em direção à floresta para dar sumiço no corpo.
   Sentiu cheiro de sangue humano. Era um garoto de 13 anos, certamente morador de rua, e parecia faminto. Ele olhou para o saco de batatas com os olhos cheios de desejo. Certamente, ele pensou que em um saco de batatas só poderia haver batatas. Ele diminuiu o passo. Mas, ao chegar perto de Eleanor, deu um impulso e, numa rapidez inimaginável para um garotinho, arrancou o saco das mãos de Eleanor, que, ainda não muito forte, não pôde detê-lo de cara.
   Correu atrás dele. "ME DEVOLVA!", "VOLTE AQUI!", "NÃO ABRA ISSO!", gritava durante a perseguição. Mas o menino não deu ouvidos.
   O garoto sumiu da vista de Eleanor. Mas ela sentiu seu cheiro e o encontrou num beco. Observou, silenciosa. Ele lambia os beiços. Abriu o saco devagar e despejou o conteúdo no chão. Ao ver o corpo, soltou um gritinho, depois se encostou na parede, paralisado. Eleanor sorriu.
   - Te avisei, não? - disse ela - Falei para você me devolver este saco. Disse aquilo para seu próprio bem. Agora, você sabe demais.
   O garoto arregalou os olhos.
   - Por favor - sussurou - Não conto para ninguém... Não conto que você é a assassina que todos têm procurado por décadas.
   - Não posso confiar em HUMANOS - ela disse, e mostrou os dentes afiados com um sorriso.
   - O q-que quer dizer com isso? - gaguejou o menino.
   Eleanor avançou no garoto para se servir de mais uma refeição.
sábado, 23 de janeiro de 2010 3 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 3

Capítulo 3

   Dois dias depois, Eleanor e Leonard estavam na aula novamente. De tempo em tempo, Leonard trocava olhares e sorrisos com Eleanor.
   Ao terminar a aula, ele perguntou se ela queria passear novamente. Ela aceitou.
   Eles andaram pelas ruas, conversando. Leonard percebeu que Eleanor falava muito sobre variados assuntos interessantes, mas não sobre sua vida pessoal. Mas não se importou muito. Tinha algo mais importante a discutir.
   - Eleanor - chamou ele de repente.
   - Sim? - atendeu ela.
   - Eu queria desabafar algo preso em mim.
   - O quê?
   Leonard respirou fundo, pronto para abrir seu coração.
   - Você é a mulher mais linda que já vi na vida, e não só isso, gosto também da sua personalidade, seu jeito de ser. Eu... acho que estou apaixonado... por você.
   Eleanor sentiu alguma coisa no coração nessa hora, e não pôde evitar de abrir um belo sorriso. Mas se arrependeu.
   - Seus caninos... - disse Leonard - Eles são... muito pontudos... como um florete em miniatura...
   O sorriso dela se apagou.
   - É... de família - disse.
   Um momento de silêncio.
   - Mas agora devo ir - disse ela, para evitar perguntas.
   - Adeus, Eleanor. Te encontro amanhã à noite na praça.
   - Está bem. Adeus.
   Ela saiu de perto dele e foi caçar.

   No dia seguinte, como combinado, se encontraram na praça.
   - Eu poderia ir à sua casa, Eleanor? - perguntou Leonard.
   - NÃO! Quero dizer, está muito desarrumada, e...
   - Está bem, está bem. Mas então, você pode ir na minha.
   - Sim, posso.
   - Mas onde fica a sua casa?
   Eleanor suspirou. Não podia escapar desta pergunta.
   - Fica perto do bosque.
   - Interessante. Agora vamos para minha casa.
   - Espere - ela disse.
   - O quê?
   - Fique parado.
   Ele obedeceu. Ela começou a se aproximar dele, devagar. Abraçou-o. Ele encarou o rosto dela, seus enormes olhos verdes hipnotizantes. Ela então aproximou o rosto do dele. E os dois se beijaram.
   - Ai - fez Leonard - Minha língua. Você raspou os dentes nela.
   - Me desculpe - disse Eleanor - Vou tomar mais cuidado depois. Vamos para sua casa, agora.
   Ele a levou para sua casa, não muito longe da praça. Era uma casa bonita, mas simples.
   - Minha mãe viajou a negócios - disse Leonard - Mas ela deixou metade de um bolo, e eu sei fazer café. Quer?
   - Não, obrigada.
   - Nem água, um suco...?
   - Não quero nada, obrigada.
   - Está bem. Fique à vontade. Preciso ir ao banheiro.
   - Tudo bem.
   Ao sair do banheiro, Leonard foi para a sala. Eleanor não estava lá. Leonard a procurou por todos os cômodos, e por fim procurou-a no quarto de sua mãe. Ela estava lá, semi-nua, deitada na cama de casal. Leonard, surpreso, admirou o corpo simplesmente perfeito de Eleanor. Ela sorriu e disse:
   - Venha.
   Ele não se atreveu a desobedecer.

   Eleanor suspirava nos braços de Leonard, adormecido. Olhou o relógio na parede. Eram 4 da manhã. "Droga", pensou ela, "Vou ter de passar fome hoje." Ela então se levantou cuidadosamente para não acordar Leonard, se vestiu e foi para casa.
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Tinta Vermelha - Cap. 2

Capítulo 2

Eleanor e Leonard andaram para a praça. Se sentaram em um banco, Eleanor de pernas cruzadas e confiante, e Leonard um pouco inseguro, mas decidido a conquistá-la.
Leonard e Eleanor olharam para cima, para o céu estrelado.
- São lindas - disse Eleanor.
- Sim, são - disse Leonard - Como você.
- Obrigada. Mas as estrelas são mesmo incríveis. Mesmo se observadas durante séculos por apenas uma pessoa, não perdem sua beleza.
- Você diz isso como se as observasse durante séculos! - Leonard riu.
- Anh... Foi só um modo de falar.
- Entendo.
Ficaram calados, sentindo a brisa fria da noite.
- Está frio - disse Leonard - E você está sem casaco. Quer que eu te empreste o meu?
- Não precisa - disse Eleanor - Sou resistente a frio.
- Então deixe eu te abraçar para você não sentir frio.
- Tudo bem, então.
Leonard passou um braço pelos ombros de Eleanor. Ela recostou a cabeça perto do pescoço dele, sentindo a pulsação da artéria carótida. Sorriu. Podia matá-lo ali mesmo. A praça estava deserta e ele se encontrava indefeso. Então um pensamento mais cruel surgiu em sua mente: O melhor era matá-lo quando ele estivesse realmente envolvido com ela, quando confiasse nela e a pequena atração que sentia tivesse virado amor.
Então ela beijou levemente o rosto de Leonard, que sorriu.
- Então - disse ele - Onde você mora?
- Em uma casa - respondeu Eleanor.
- Sim, mas onde? Mora sozinha?
- Completamente só. E você?
- Moro com minha mãe. E seus pais, como são?
- Eu sou órfã.
- Meus pêsames. E me desculpe se te chateei.
- Tudo bem. Tem tanto tempo que nem me importo mais.
O relógio da torre da igreja da praça começou a bater meia-noite.
- Melhor eu ir - disse Eleanor.
- Adeus, Eleanor - se despediu Leonard - Te vejo outro dia.
- Não. Te vejo outra noite seria o correto.
- Então está bem. Te vejo outra noite, Eleanor.
- Adeus, Leonard.
Leonard foi sozinho para casa, com um sentimento estranho sobre Eleanor. Ela com certeza não era normal. Mas, mesmo assim, ele sentia algo por ela.
Enquanto Leonard ia para casa se deitar, Eleanor havia acabado de começar seu dia, ou melhor, noite.
Eleanor andou pela cidade, mascarada pela escuridão. Procurando uma vítima. Finalmente encontrou, perdida em um beco, uma criança. O menino tremia de frio, e olhou Eleanor de olhos arregalados.
- Moça - disse o menininho - Eu estou com frio e com fome. Me ajuda a encontrar minha casa?
- Não será preciso - disse Eleanor, se aproximando da criança - Eu posso fazer você nunca mais sentir frio, e nem fome.
- Mesmo, moça?
- Sim.
- Como?
- Desse jeito...
Eleanor saltou sobre o menino, torcendo seu pescoço e mordendo-o. O menino mal teve tempo de gritar ou tentar se defender antes de cair, seco e morto.
Eleanor se levantou, sentindo-se revigorada. Pegou o corpo e levou para a floresta, onde o queimou e enterrou as cinzas. Depois, foi para casa.
Sua casa era um pequeno casebre, velho e mal-cuidado. Ela abriu a porta com a chave enferrujada e entrou. A madeira rangia sob seus passos. Eleanor foi até o pequeno banheiro e se olhou no espelho. Haviam manchas de sangue em seu rosto. Ela abriu a torneira e lavou-se.
Durante o resto da noite, ela ficou passeando pelo bosque. Então, quando o céu começou a ficar roxo ao invés de azul, correu de volta para casa e entrou no alçapão que dava para seu quarto: Um porão, que tinha um caixão, um guarda-roupa e uma penteadeira. Ela abriu o caixão e se deitou nele. Depois, fechou-o e entrou em um sono sem sonhos, como tinha toda noite.
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Tinta Vermelha - Cap. 1

Bem-vindos, aqui vou postar as histórias que escrevo, porque vivo cheia de idéias de história na cabeça. Para começar este blog com o pé direito, vou postar uma história maior, dividida em capítulos, sobre vampiros (sei que você vai me achar uma seguidora de modinhas. Mesmo não sendo essa minha intenção, pense o que quiser). Aí vai o primeiro capítulo:

Tinta Vermelha

Capítulo 1

Essa história começa em uma sala de aulas de pintura para jovens com cerca de 18 anos. A aula é noturna. O tema é livre. Todos podem pintar o que quiser.
O velho professor se aproxima de um aluno. Um rapaz comum, de vinte anos de idade. Cabelos castanhos e lisos, com um leve topete charmoso. Olhos azuis esverdeados, lábios finos. Estava compenetrado em sua tela em branco.
- Por que não pintou nada, Leonard? - perguntou o professor.
Leonard deu um sorrisinho travesso e disse, com profunda cara-de-pau:
- Não vê, professor? Isto é minha pintura: uma tela em branco! Representa a alma de um homem vazio, que não tem um sentido na vida a seguir.
O professor riu do aluno, e disse:
- Não vai me enganar com estas palavras, Leonard. Te conheço a quase três anos! Agora, trate de usar sua imaginação, e até o final da aula quero ver suas mãos sujas de tinta por um bom trabalho.
Leonard concordou com a cabeça, mas quando o professor se afastou, o rapaz remedou:
- Nhénhénhé sujas de tinta, nhénhénhé bom trabalho! - e revirou os olhos.
O professor então se dirigiu para uma aluna. Era uma moça. Mas não era comum. Era absurdamente linda, com os cabelos negros que formavam ondas perfeitas e desciam por seus ombros e suas costas. Seus olhos eram de um verde intenso e penetrante, e seus cílios escuros e espessos os emoldurava perfeitamente. Seus lábios eram grossos em formato de coração. Seu corpo era perfeito e escultural. Ela não usava maquiagem e vestia roupas simples, mas isso não diminuía sua beleza. E sua pele era incrivelmente branca, sem nem um mínimo defeito. A moça se chamava Eleanor.
Mas, como já foi dito, Eleanor não era comum. Eleanor era uma vampira. E nem mesmo era jovem: ela tinha mais de oitocentos anos.
Quando o professor se aproximou, ela sorriu com a boca fechada. O professor observou sua pintura: Uma carta manchada de tinta preta.
- Como sempre, incrível, Eleanor.
- Não posso desapontá-lo - disse Eleanor, com sua bela voz sedutora - Afinal, sou sua aluna preferida.
- Sim! Minha preferida! Sempre será!
- Obrigada, mestre. Me sinto lisonjeada.
O professor se afastou. Ele realmente admirava Eleanor, mas ao mesmo tempo tinha medo. Eleanor estudava em sua classe desde que ele era novo. Ele agora estava na faixa dos sessenta. E ela estava sempre igual, não envelhecia! Mas, mesmo desconfiado, não queria perder uma ótima aluna como ela.
Leonard observou Eleanor, admirado, como sempre, com sua beleza. Durante os quase três anos em que ele freqüentou aquelas aulas, ela sempre foi misteriosa e reservada, e não conversava muito com os outros. Ela nunca havia dito uma palavra com ele.
O professor sentou-se em sua cadeira e abriu o jornal.

Mais uma pessoa desaparece misteriosamente na cidade na madrugada de ontem
O mistério dos desaparecimentos que vem durando décadas em nossa humilde cidade parece jamais acabar. Pessoas, de todos os sexos e idade desaparecem, uma a cada dia. Nunca foi encontrado nenhum tipo de pista que possa dizer o que foi feito desses cidadãos. A polícia desconfia de animais ou seqüestradores estrangeiros, mas não há provas para nenhuma dessas hipóteses.

O professor suspirou e fechou o jornal. Todos os dias uma matéria como aquela. A única coisa que mudava era o nome das pessoas desaparecidas.
Eleanor deu os últimos retoques em sua pintura e a admirou. Depois, se virou e encarou os humanos na sala sentindo seus cheiros de dar água na boca, cada um com algo que os diferenciava. Então parou seus olhos em Leonard. Aquele garoto era bonito, uma beleza comum, mas, mesmo assim, atraente. E o perfume de seu sangue era delicioso. Ele a encarava também. Ela sorriu, de boca fechada como sempre, para ele não ver suas presas. Ele sorriu também, um sorriso que ele pensava ser sedutor. Eleanor deu uma risadinha, e ele piscou um olho. Ela se virou para sua pintura e esperou o final da aula.
Finalmente, o professor pediu que guardassem seus materiais e fossem para casa. Na frente da casa onde ficavam as aulas de artes, Leonard se aproximou de Eleanor.
- Boa noite - cumprimentou - Eleanor, não?
- Sim - respondeu Eleanor - E você é Leonard. Prazer em te conhecer.
- O prazer é meu, de falar com uma bela dama assim.
- Você também é bastante... - Eleanor respirou o cheiro delicioso do sangue de Leonard - Atraente...
- Obrigado - Leonard sorriu, convencido - Então... Está livre esta noite?
- Talvez. Mas terei que ir mais ou menos à meia-noite. Tenho algo... Importante a fazer.
- Tudo bem, "Cinderela". Podemos ir jantar.
- Jantar? Oh, não... Estou... Em uma dieta especial.
- Entendo... Então, podemos nos ver amanhã à tarde?
- Não, não... Minha pele é meio... Sensível ao sol. Tenho alergia.
- Alergia? Estranho. Mas, se é assim, podemos ir observar as estrelas na praça.
- Tudo bem, então. Iremos.

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Pronto
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Beijos
 
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