sábado, 25 de dezembro de 2010 5 comentários

Feliz Natal

Apenas desejando um feliz Natal para todos!


Imagem: Mangá & Anime
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010 9 comentários

Paul cap 15

Capítulo 15

Na semana seguinte, o colégio resolveu nos levar em excursão a uma exposição de arte. Eu achava pinturas, desenhos e artes plásticas em geral uma chatice, mas minha mãe insistiu que eu fosse porque não custava nada.
Não custava nada mesmo. A excursão era de graça.
Por isso eu fui. Relutantemente, mas fui.
No ônibus, um professor avisou que alguns alunos de outro colégio estariam na exposição conosco.
Descemos do ônibus e lá estavam os alunos do outro colégio, descendo do ônibus deles.
- Será que eles são legais? – perguntou Luna.
Eu encarei aquela turma. Normais. Então, saiu uma garota de cabeça baixa e olhar impassível, atrás de um garoto comum. A garota olhou para mim e sorriu. Era Sally.
Eu acenei para ela e ela andou na minha direção.
- Como vai você, Paul?
- Vou bem. E você?
Era difícil me ouvirem dizer que vou bem. Mas eu realmente estava feliz.
- Também estou bem – disse Sally.
- Quem é ela? – perguntou Luna, com uma pitada de ciúmes na voz.
- É a garota que eu conheci no cinema, Sally. Sally, esta é minha namorada Luna.
- É – Sally disse – Eu vi ela tremendo no cinema.
Ela riu. Eu ri também. Luna fez um biquinho.
- Sou medrosa sim, e daí?
- Eu sei, Luna. É normal. Mas é engraçado – falei.
- Sim – disse Sally – Afinal, é só um filme. Há pessoas muito mais monstruosas na vida real.
Eu e Sally trocamos um olhar de cumplicidade. Sorrimos diabolicamente. Luna não percebeu. Ela estava olhando a fila de alunos que entravam na exposição.
- Precisamos entrar – disse ela.
Eu acenei para Sally e segui a fila com Luna.
- Não gostei da sua amiguinha – disse Luna.
- Nós temos muitos gostos em comum – falei – Se você gosta de mim, devia gostar dela também. Somos muito parecidos.
Luna não respondeu.
A exposição era bem chata. Não tinha quase nada interessante. Havia uma escultura de uma pessoa plantando bananeira com um grande olho na barriga. Havia também a pintura de uma mulher de vestido longo e rosa-berrante. E várias coisas parecidas.
Duas horas depois, fomos encaminhados a uma lanchonete. Maioria dos lanches eram doces. Sally apareceu do meu lado.
- Você gosta de doces? – perguntou.
Eu mostrei a língua. Ela sorriu.
- Eu também detesto. Enjoam, não?
Eu pedi um cachorro-quente. Sally pediu uma empada. Sentei-me onde Luna estava, comendo um pudim.
- E então, Paul – começou Luna, tentando arranjar assunto – quando é seu aniversário?
Demorei um pouco para responder. Não era uma data importante para mim.
- Acho que cinco de maio – respondi – Mas na verdade, não é uma data importante para mim.
- O meu é doze de novembro – disse Luna.
- Que bom – eu disse.
- E você, Sally? – perguntou Luna.
- Dezessete de maio, por aí.
- No mesmo mês que o Paullie! Que legal!
- Ahã. Legal.
Terminamos de comer em silêncio.
- Onde foi seu namorado? – perguntei a Sally.
- Ele está em alguma outra mesa lanchando com os amigos. Não gosto dos amigos dele.
- Claro, claro – disse Luna, como se pensasse o mesmo sobre os meus amigos. Ou melhor, a minha amiga.
Pigarreei:
- Luna, vamos voltar para a fila.
- Está bem.
Ela segurou meu braço e lançou um olhar competitivo para Sally.
Depois de mais uma rodada entediante de pinturas entediantes num lugar entediante com pessoas entediantes, nos dirigimos ao último quadro.
Era um dos quadros menos entediantes. Retratava uma grande árvore sem folhas. Nos seus galhos, havia cabeças sangrentas penduradas.
- Pintura interessante, não? – disse alguém.
Olhei para o lado. Era Sally. Ela deu um sorrisinho.
Uma pequena multidão se juntou em volta de um canto da parede. Todos pareciam horrorizados.
- Ele está morto! – uma garota gritou.
Eu me aproximei. Havia um garoto sentado, com a boca aberta e a cabeça tombada de lado. Havia furos de canivete na sua testa e em outras regiões da cabeça. Estava visivelmente morto.
- Duvido que ele volte a reclamar do meu cabelo – disse Sally, baixinho, ao meu ouvido.
Nós sorrimos. A polícia chegou. Os professores nos levaram embora.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010 4 comentários

Paul cap 14

 Capítulo 14

Sem aquela garota que eu matei para nos chatear, quase ninguém veio dizer que estávamos namorando. A amiga da Luna disse estar feliz por eu ter voltado a conversar com ela.
Eu também estava feliz, em parte. Mas, ao mesmo tempo, me preocupava com ela. Eu sou perigoso. E eu sabia que quanto mais próximo eu ficasse dela, mais eu iria querer arrancar as tripas dela fora. Mas, estranhamente, ela não parecia querer arrancar as minhas.
Luna me chamou para ir ao cinema, ver um filme idiota chamado “Um romance sem palavras” ou algo assim. Só para agradar, aceitei o convite.
Lá para as seis da tarde, passei na casa da Luna e a busquei para o cinema. Já que não era longe, fomos a pé.
Chegando lá, havia uma fila gigante para comprar as entradas para aquela porcaria de filme. Entramos na fila, mas logo anunciaram que os ingressos acabaram. Resolvemos assistir outro.
Luna sugeriu que podíamos ver um filme infantil. Eu podia até ver uma chatice romântica, mas aquilo era demais para mim.
- Ah, Paullie, vamos... Eu queria tanto passar um tempo com você fazendo alguma coisa legal.
- Ver “A Terra Cor-de-rosa dos Coelhos” não é coisa legal para mim. Se quer ver algum filme comigo, só se for aquele.
Apontei o cartaz do filme “A ladra de vozes”, um filme de terror pesado que diziam ser bom.
- M... mas... – disse Luna – vou ficar com medo.
- É só um filme, Luna. Além do mais, vou estar do seu lado durante todo o tempo.
Ela sorriu:
- Está bem. Com você, me sinto protegida.
Claro, ela não podia imaginar que não tinha jeito de ela ficar tão desprotegida quanto junto de mim. Mas eu relevei isso e disse:
- Claro, Luna. Vou te proteger.
Ela pegou meu braço e compramos o ingresso. Depois fomos para a sala.
Não havia nenhum outro casal apaixonado naquela sala, apenas um. Resolvi me sentar perto deles, pois os outros eram aquelas grandes turmas de amigos que falam alto e jogam pipoca nos outros.
Olhei para o casal. O garoto tremia antes mesmo que o filme começasse. A garota parecia comigo. Não a aparência, mas o jeito como ela agia e olhava em volta, desanimada e com um leve brilho psicótico nos olhos.
Ela me olhou e deu um sorrisinho. Eu dei outro. Luna tremia assim como o namorado daquela garota. Sentei-me do lado dela.
- Olá – ela disse.
- Oi.
Olhamo-nos por um instante.
- Já matou alguém? – perguntei baixinho.
- Que pergunta. Já!
E ela pôs a mão no bolso, puxando diretamente uma lâmina que reluziu à fraca luz do cinema. Um canivete.
- Eu não costumo andar armado – falei – Prefiro usar minha própria força.
Ela sorriu:
- Sally.
- Paul. Prazer.
- O prazer é meu.
Apertei a mão dela rapidamente. O filme começou. Luna se agarrou a mim.
O filme era sobre uma mulher que sonhava em ser cantora, mas era muda. Com ódio, ela começou a perseguir grandes cantores e matá-los, colecionando suas cordas vocais.
Luna tremeu e fechou os olhos durante praticamente o filme inteiro. Na parte em que a mulher muda enfiou uma sombrinha na goela de uma cantora, na parte em que a muda tirou o cérebro de um cara pelo nariz, e até mesmo na parte em que a muda transpassou uma cantora mais velha com uma perna de cadeira. Já Sally não. Como eu, ela gargalhava e seus olhos brilhavam enquanto ela assistia. Seu namorado tinha desmaiado.
Por fim, o filme acabou e saímos. Sally acenou para mim antes de levar o namorado no colo para a enfermaria. Eu olhei o rosto aterrorizado de Luna.
- O que achou do filme? – ela perguntou.
- Levinho – respondi – Realmente, hoje em dia as pessoas não fazem filmes de terror de verdade. Aquele sangue é bem tosco. E você, Luna? O que achou?
- Medonho – ela disse – vou ter pesadelos.
Eu ri.
Quando estávamos na porta da casa dela, ela se virou para mim e disse:
- Paullie, tenho que fazer uma coisa para ter certeza que vou conseguir dormir hoje.
- O quê?
Foi muito rápido. De repente, ela segurava meu rosto entre as mãos e me beijava. Eu fiquei calado, e não tentei empurrá-la. Eu não quis magoá-la. Certo, gostei um pouco. É, tudo bem, gostei muito. Mas me arrependi depois. Era melhor ela ficar magoada do que acabar perdendo a vida.
Ela me soltou, acenou e entrou em casa. Eu fiquei encarando a porta por 10 minutos, chocado. Depois, sorri e fui para casa.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010 5 comentários

Paul cap 13

 Capítulo 13

Como não havia porão na minha nova casa, deixei o baú com ossos no fundo do meu armário, embaixo de uma pilha de roupas que o camuflava perfeitamente. Minha mãe jogou os vidrinhos com olhos e tripas fora porque fediam demais.
Aquele quarto não combinava comigo.
Foi difícil conseguir dormir de noite sem ouvir o diabrete batendo na gaveta. Estava tudo silencioso. Nem mesmo a madeira rangia. Eu podia até mesmo ouvir a respiração de meus pais dormindo. Dormi mais tarde que o normal, às quatro da manhã.
Acordei no dia seguinte me arrastando, morrendo de sono. Olhei-me no espelho enorme do banheiro. Minhas olheiras estavam ainda maiores que o normal. Meu cabelo estava desarrumado do jeito que eu gosto que ele fique. Mas meu pai odiava, então o arrumei como sempre.
Desci para a cozinha. Minha mãe havia preparado um café da manhã suntuoso, e saltitava de alegria. Eu a observei, infeliz. Ela merecia uma família melhor. Um marido que tolerasse seus pequenos desastres. Um filho que gostasse de seus agrados e carinhos. Que a tratasse como gente.
Mas não posso fazer nada se ela escolheu meu pai.
Sentei-me à mesa e tomei um copo de suco e alguns biscoitos de água-e-sal. Ela se sentou ao meu lado, feliz por eu estar com ela para tomar café. Deu um beijinho na minha bochecha. Eu dei uns tapinhas amigáveis nas suas costas, terminei meu suco e saí. Meu pai já tinha ido ao trabalho.
Na porta de casa, encontrei Luna.
- Indo para a escola? – ela perguntou.
Afirmei com a cabeça.
- Vou com você – ela disse, e pegou minha mão. Eu a empurrei – Você não vai fugir de mim, Paullie. Por mais que me ache uma bruxa, sei que você gosta de mim.
Ela abraçou meu braço, acariciando meu ombro. Então, encostou acabeça nele e segurou minha cintura.
“Cai fora”, eu queria dizer. Em vez disso, o encanto dela me fez dizer:
- Sim, Luna. Eu gosto de você. Estou apaixonado por você, Luna.
Ela sorriu:
- Eu sabia.
Depois, ela me puxou pelo colarinho e olhou nos meus olhos.
- Pode me beijar agora? – perguntou.
Eu quase cedi. Mas a empurrei gentilmente.
- Não – respondi, me virando e continuando em direção à escola.
- Por quê? – ela perguntou, correndo atrás de mim.
Realmente. Por quê? Eu tinha 17 anos e nunca havia beijado uma garota, sendo que já tive a chance várias vezes. Isso não faria sentido para ninguém.
Mas para mim fazia. Eu sou perigoso.
Senti o pequeno peso no meu bolso sumir. Luna havia surrupiado o meu caderno de poesias.
- Posso ler? – perguntou.
“Tire as mãos disso!”, eu quis gritar.
- Claro – falei.
Luna abriu o caderno e começou a ler.
- São lindas – disse ela. Ela sorriu – E este aqui? “O coração de Luna”. É sobre mim?
- Não! Não leia! – gritei, e tomei o caderno cinza das mãos dela, guardando-o de volta.
Luna sorriu.
- Está com vergonha?
- Não é vergonha. É que...
- Claro, claro, entendi.
Eu sorri e envolvi os ombros dela com o braço. Fomos os dois juntos para a escola.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010 2 comentários

Paul cap 12

 Capítulo 12

Lá para as 4 da tarde, a casa estava vazia. Não levamos nenhum móvel, pois a casa nova já era mobiliada. Simplesmente entramos no carro do meu pai e partimos ao nosso novo lar. Observei minha casa, agora com uma placa de vende-se no gramado, até que ela sumisse de vista.
Meu pai parou o carro. Desci e olhei a casa à minha frente.
- Gostou, Paul? – perguntou minha mãe.
A casa era gigante, com as paredes amarelo-escuras, um gramado verdejante, com arbustos bem cuidados e floridos. Havia grandes janelas. A casa refulgia ao sol. Meus olhos ardiam de tão maravilhosa.
- Odiei – respondi.
Não, eu não estava fazendo birra. Aquela casa não fazia meu estilo. Arrumadinha e feliz demais.
Entrei na casa. Era espaçosa, arejada e bem iluminada. Tinha dois andares como a outra, mas seus móveis eram confortáveis e modernos, ao contrário da minha casa antiga. Toda aquela luz e conforto me deixavam enojado. Subi a escada espiralada. Havia um quarto de casal e dois de solteiro. Na porta do menor tinha uma placa onde estava escrito “Hóspedes”. Deduzi que o maior era meu e entrei.
Tive que fechar os olhos com a luz cegante da janela do meu quarto. Parecia que eu estava na mira de um holofote. Sentei-me na minha nova cama. O colchão era macio e a roupa de cama estava novinha em folha. Havia até mesmo um travesseiro ainda dentro da embalagem. O armário era grande, o dobro do espaço que minhas poucas roupas ocupavam. Procurei pelas gavetas. Todas vazias e limpas. Nada de diabretes.
Suspirei. No meu novo quarto havia também uma mesinha de cabeceira e uma escrivaninha. Do lado desta havia uma porta. Eu a abri. Era um banheiro. Havia uma banheira, uma pia e um vaso sanitário. E um enorme espelho.
Era tudo perfeito. Do jeito que eu detesto.
Resmunguei e desci para o jardim. Eu precisava pegar minhas coisas e colocar no quarto.
Abri o porta-malas e peguei duas malas. Mas quando fechei o porta-malas, vi algo que me fez odiar ainda mais minha nova casa.
Na casa da vizinha, a porta se abriu. E, de dentro dela, saíram duas mulheres. Uma era alta, de cabelos negros em rabo-de-cavalo, olhos de gato marrom-avermelhados, boca grossa e expressão simpática. Parecia ter uns 32 anos. A outra eu conhecia bem.
- Luna? – perguntei a mim mesmo. Ela pareceu me ver também.
Luna sorriu e correu até mim.
- Paul! – ela gritou – você se mudou para cá? Que ótimo!
Eu lancei meu melhor olhar gélido, mas ela pareceu não se importar.
- Aquela é a minha mãe – Luna disse, apontando a outra mulher.
- Nova, não? – eu perguntei, e quase me bati por ter dito alguma coisa com aquela bruxa.
- Sim. Ela engravidou quando tinha 15 anos. Meu pai não quis se casar com ela, mas ela se casou com outro mais tarde. Mesmo assim, meu pai me visita e me dá presentes de vez em quando. Tenho mais dois irmãos, um adotado de 15 anos e um filho do meu padrasto, que ainda é bebê.
Ela continuou a tagarelar sobre um monte de coisas. Eu suspirei, virei de costas e levei minhas malas pro meu quarto, deixando-a falar sozinha.
domingo, 12 de dezembro de 2010 6 comentários

Paul cap 11

Capítulo 11

Um dia cheguei em casa e fui recebido por um forte abraço de minha mãe. Olhei para a sala. Estava vazia.
- O que aconteceu? – perguntei.
- Vendemos os móveis quase todos – disse minha mãe – Menos seu armário e as outras coisas que já estavam aqui quando chegamos.
- Vamos nos mudar? Já?
- Ainda hoje. Vamos, arrume suas coisas.
- Certo.
Pequei uma maçã na cozinha e subi para o meu quarto. Abri a gaveta e entreguei a maçã para o diabrete. Ele a engoliu inteira, com o talo e as sementes. Depois abriu um sorriso diabólico e ao mesmo tempo amigável para mim.
- Eu vou embora, Johnson – falei.
Ele cuspiu na madeira do fundo da gaveta. Depois mostrou a língua para mim.
- Eu também vou sentir sua falta – eu disse – você vai achar outro dono, pode ter certeza. E se ele quiser te maltratar, sabe o que fazer, não?
O diabrete fez um som parecido com uma medonha risada. Eu ri também.
- Adeus, cara – me despedi.
E essa foi a última vez em que conversei com meu único amigo. Fechei a gaveta e comecei a arrumar minhas malas.
sábado, 11 de dezembro de 2010 2 comentários

Paul cap 10

Capítulo 10

Nas semanas que se seguiram, Luna já não era a garota alegre que eu conhecia. De tempos em tempos flagrava lágrimas em seus olhos.
Algumas vezes ela tentou falar comigo. Mas eu a ignorei completamente e lancei a ela olhares gélidos e cruéis.
Sobre a morte misteriosa da garota fútil, ninguém imagina que tenha sido eu. Apenas a amiga mais íntima dela me dava olhadas acusadoras, mas além dela ninguém parecia sentir falta da garota. Depois de um tempo, botaram a culpa num gorila que fugiu do zoológico.
Luna começou a não ter animação para sair com as amigas e todo dia estava com cara de quem não dormiu direito.
Com o tempo, porém, ela foi melhorando, chorando menos, sorrindo mais. Estava quase como antes. Para mim isso era ótimo. Ela ia conhecer outros caras, voltar a ser feliz e me esquecer. È o melhor para ela.
Eu tinha grandes esperanças que isso acontecesse. Leda ilusão.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010 3 comentários

Paul cap 9

Capítulo 9

Depois da aula, desci com Luna para a portaria e saímos para ir à uma lanchonete. Ainda no quarteirão da escola, vi a garota fútil que zombou da Luna na aula. Ela estava se dirigindo a uma rua deserta.
Era a minha chance.
- Espere aqui, Luna – eu disse – tenho que fazer uma coisa.
- Está bem.
Saí correndo na direção da garota. Ela pareceu perceber que eu a perseguia e começou a andar mais rápido. Mesmo assim, eu a alcancei, peguei seu braço e a joguei violentamente nos tijolos de um muro. Depois apertei o pescoço dela.
Naquele momento, eu podia ouvir sua respiração ofegante, a pulsação rápida de seu coração. Podia sentir o terror que ela sentia, a tensão em seus músculos.
Depois, com uma força que eu não sei de onde veio, degolei-a com minhas próprias mãos.
Limpei o sangue das minhas mãos na blusa dela. Não foi suficiente. Lambi os restículos de sangue nos meus dedos e larguei a garota lá.
Voltei para onde deixei Luna esperando.
- Aonde você foi? – perguntou ela.
- Fui ver se tem o que eu precisava naquela loja – apontei qualquer loja de onde eu estava.
- Mas é uma perfumaria.
- Anh... Presente pra minha mãe.
- Certo. Vamos?
- Claro.
Chegamos na lanchonete. Pedi um hambúrguer comum e Luna pediu um de frango com salada.
Comi em silêncio, pensando no assassinato que havia acabado de cometer. Já Luna não calava a boca, falando de um monte de bobagens sobre a vida dela enquanto eu fingia ouvir.
No fim, ela segurou minha mão e disse algo sobre mim. Eu imediatamente comecei a prestar atenção.
- E, Paul, mesmo tendo muitos outros garotos a fim de mim – dizia ela, colocando a mão no meu ombro – eu só ligo para você, Paul. Gosto de você. Muito.
Ela beijou minha bochecha e me abraçou. Eu dei um sorrisinho e acariciei os cabelos dela. Ela levantou o rosto e se aproximou do meu. Senti a respiração leve dela. Nossos lábios quase se encostavam.
Abri os olhos. O que eu estava fazendo? Eu a empurrei e me encolhi no extremo do banco. Ela me olhou, incrédula.
- Por que fez isso? – perguntou ela.
Eu amarrei a cara. Ela não entendia que eu era perigoso, não importava o que eu fizesse. Ela só usava seus truques para me encantar. Aquela desgraçada. Aquela...
- Bruxa! – Eu gritei para ela – Você é uma bruxa!
- M-mas – disse ela – Paul, do que você...
- Fique longe de mim.
O queixo dela começou a tremer e algumas lágrimas escorreram. Droga. Ela estava chorando.
O que eu ia fazer? Olhei para todos os lados. Resolvi que o melhor seria fugir. Pulei por cima da mesa e saí correndo. Mas, infelizmente, minha fuga triunfal foi interrompida por um atendente muito bravo que exigia que eu pagasse a conta.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010 5 comentários

Paul cap 8

 Capítulo 8

   Na sexta-feira, Luna veio falar comigo, animada:
   - Paullie, minha mãe me deu 10 libras para sair para algum lugar. Quer ir comigo?
   - Talvez. Para onde?
   - Para uma sorveteria.
   Ufa. Eu tinha uma desculpa para não ir.
   - Não vou.
   - Por quê?
   - Não gosto de sorvete.
   - Cinema? Podemos assistir a um filme romântico.
   - Odeio.
   - Hambúrguer?
   Droga.
   - Pode ser.
   Ela sorriu.
   - Hoje depois da aula?
   - Tanto faz.
   - Está bem então.
   Por que eu cedia a tudo o que ela pedia? Como ela conseguia me enfeitiçar? O que era ela?
   - Oi, Luna! – disse uma garota fútil e nojentinha como a maioria das da minha sala.- Como vai, amiga?
   - Estou ótima – respondeu Luna.
   - Sei, claro – disse a fútil, olhando para mim. Ela e alguns amigos dela deram risadinhas - Deve estar ótima, saindo com o vampiro psicótico.
   Luna corou:
   - Bem, eu...
   - Onde vai ser seu próximo encontro? No cemitério?
   Ela e os amigos riram ainda mais, e Luna parecia querer chorar.
   Olhei nos olhos da garota nojenta. Franzi o cenho, formando uma sombra macabra que tampava meus olhos como uma máscara. Ela pareceu perceber, e calou a boca por um instante, e me encarou com olhos arregalados. Cerrei o punho.
   A garota parecia assustada. Virou-se para os amigos e falou para eles pararem.
   Depois me deu uma última olhada amedrontada e foi embora.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010 3 comentários

Paul cap 7

 Capítulo 7

   Um pouco depois do almoço, o barulho de punho em madeira ecoou pela minha casa silenciosa. Depois, os passinhos da minha mãe descendo a escada e mexendo num molho de chaves.
   Eu comecei a suar.
   Ouvi a doce voz de Luna dizendo boa tarde, e minha mãe me chamando para descer. Eu corri até a escada. E lá estava ela, mas, em vez de usar a saia listrada até os joelhos como na escola, estava de vestido curto. E, de repente, percebi que eu usava a minha camiseta preferida.
   Luna abriu um largo sorriso. Minha mãe também. Luna subiu a escada até chegar na minha frente.
   Eu queria dizer “É melhor ficarmos na sala, assistindo qualquer coisa na televisão em preto-e-branco”, mas em vez disso, apontei a porta ao meu lado e disse:
   - Esse é o meu quarto.
   Luna sorriu.
   - Eu adoraria dar uma olhada.
   Ela pegou minha mão. Eu senti um calafrio. Depois ela me puxou para o quarto.
   Certo. Eu estava no meu quarto, sozinho com uma garota. Aquilo não ia nada bem.
   Luna olhou em volta.
   - Bem escuro, não?
   Eu afirmei com a cabeça. Ela sentou na cama.
   - E o seu... diabrete? – ela perguntou.
   - Você que ver?
   - Quero.
   Eu abri o armário e abri a gaveta. Acenei para que ela se aproximasse.
   Esperei que ela risse, me chamasse de louco e anunciasse para todos que eu cuidava de um diabrete imaginário.
   Mas, em vez disso, ela arregalou os olhos e ficou muda. Meu diabrete começou a correr loucamente pela gaveta, agitado com a visita.
   - Incrível – disse Luna – Existem. Diabretes existem.
   Ela parecia abobada. Então, deu um sorriso e, decidida, enfiou a mão na gaveta para acariciar o Jhonson.
   - Cuidado! – eu gritei, mas tarde demais.
   O Jhonson mordeu o dedo de Luna com toda a força que tinha. Ela berrou e sacudiu a mão, mas os dentes dele se cravaram muito fundo. Eu peguei as pernas do diabrete e o puxei com violência, tacando-o de volta para a gaveta. Ele ficou tonto com a viagem aérea.
   Luna segurava a mão ferida, gemendo. Eu estendi a mão.
   - Deixe-me ver – pedi.
   Ela pôs a mão sobre a minha. Haviam dez buracos fundos, e o sangue escorria livremente. Minha visão se turvou, e eu aproximei o rosto para observar melhor. Passei um dedo no sangue, examinei e sorri:
   - É tão... vermelho.
   Depois soltei uma risada. E as vozes vieram. “Rasgue-a”, diziam. Sim. Eu iria fazer isso. Por que não?
   Meus devaneios foram interrompidos por aquela doce voz:
   - Paul? Você está bem?
   Eu olhei para o rosto de Luna. Ela me encarava como se eu fosse louco.
   Quero dizer, eu sou louco.
   - Estou ótimo – eu disse, e pigarreei – Bem, não há nada grave aqui. Pelo jeito, ele não te envenenou. Então, você só precisa de alguns curativos.
   Peguei alguns no armário. Ela me olhou ainda mais estranho.
   - Tem certeza que está bem?
   Eu olhei para o curativo que eu segurava. Na verdade era uma cueca. Eu dei uma risadinha sem graça e joguei a cueca pela porta afora.
   - Haha. Confundi, não é? Quero dizer... ambos, curativo e cueca, são brancos e começam com C e U... Quero dizer... bem, eu viajo às vezes.
   Ela continuou a me olhar estranho. Depois riu e disse:
   - Você é engraçado.
   Eu abri algumas gavetas até encontrar o verdadeiro curativo. Peguei um pequeno pedaço de faixa e um antiinflamatório e pus no dedo dela. Ela agradeceu.
   Minha mãe entrou, segurando uma bandeja com café, leite e biscoitos. Ela nunca entendia quando eu falava que odeio doces, principalmente coisas com chocolate, como aqueles biscoitos.
   - Mãe – eu disse – não precisava trazer lanchinho para nós.
   - Vocês não podem ficar só brincando e não se alimentar – disse ela – vocês são crianças e precisam crescer.
   Eu a encarei um momento. Luna riu.
   - Crianças? Crescer? – eu perguntei.
   - Sim, vocês só têm 12 anos.
   Luna rolou no chão de rir.
   - Mãe – eu disse – Não sei se você se lembra, mas eu já tenho 17.
   Minha mãe corou. Deixou a bandeja em cima da cama e saiu dando risadinhas.
   Luna pegou alguns biscoitos e os mordiscou, olhando em volta.
   - Sua casa é legal – disse ela – parece uma casa mal-assombrada de filme.
   Ela olhou para mim, com um sorrisinho misterioso.
   - Por acaso aqui tem algum porão escondendo coisas terríveis que eu não possa ver?
   Sim. Tinha. E ela não precisava ver. Eu queria dizer: “Não, não há nada para se ver por aqui”. Mas, outra vez, meu subconsciente me fez dizer:
   - Venha comigo – eu dei um sorriso sombrio.
   Ela deu um sorrisinho e foi atrás de mim. Descemos as escadas e fomos para o corredor. Eu abri um alçapão no chão. Entrei e comecei a descer os primeiro degraus. Luna veio atrás e segurou meu braço.
   - Estou com medo, Paul – ela disse. Eu sorri e fechei o alçapão.
   Ficamos no breu. Ela me abraçou, e eu me senti aquecido no porão frio. Descemos as escadas com cuidado, eu apertei o interruptor.
   A luz fraca iluminou tudo à nossa frente. Um baú de couro e uma estante com alguns vidrinhos. Luna olhou para o chão, com o cenho franzido. Então arregalou os olhos e apontou uma grande mancha vermelha-escura no chão.
   - Isso é sangue? – perguntou – Sangue de verdade?
   Eu confirmei com a cabeça.
   - Mas é antigo. – eu disse - Está seco.
   Luna começou a examinar o conteúdo dos vidrinhos.
   - São olhos. – disse ela – Olhos e tripas.
   Realmente, haviam vidrinhos com globos oculares ressecados e pedaços de intestinos e miolos. A pele de Luna se arrepiou e ela estremeceu. Eu segurei no ombro dela para reconfortá-la.
   - E aquele baú?
   Eu sorri, orgulhosamente.
   - Venha ver...
   Eu me ajoelhei na frente do baú, e ela do meu lado. Eu peguei a chave escondida em um sulco na parede e abri o cadeado. Levantei a tampa do baú.
   Luna admirou, terrificada, as dezenas de ossos que se empilhavam por lá. Ela estendeu a mão, mas hesitou.
   - Pode pegar – eu disse – não mordem.
   Comecei a mexer nos ossos. Luna pegou um pequenininho com a ponta dos dedos e o examinou.
   - São humanos? – perguntou.
   - Acho que sim. – respondi – Mas tem um que é humano com certeza absoluta.
   Tirei um crânio humano ao qual faltavam dois dentes. Luna olhou, boquiaberta.
   - Incrível – ela disse – É antigo, não é?
   - Claro – menti.
   Não era antigo. Na verdade, eu mesmo havia matado aquele cara. Eu tinha dez anos e estava voltando com minha mãe da padaria à noite. Aquele mendigo asqueroso começou a falar umas coisas... nojentas com ela e começou a arrancar suas roupas. Eu fiquei tão nervoso, que, com um pedregulho pontiagudo, atravessei o peito dele com uma força desumana. Eu nunca entendi de onde arranjo tanta força quando quero.
   - Por que sua família fez isso com essas pessoas? – perguntou Luna.
   - Uma família de loucos – respondi.
   Luna estava suando frio.
   - E-eu quero ir embora daqui – disse, e abraçou-me de novo.
   - Está bem – eu disse – vamos.
   Saímos do porão. Luna suspirou aliviada.
   - Amedrontador – falou – mas muito interessante. Sua casa tem coisas incríveis, Paul.
   Eu sorri. Ela sorriu também.
   - Mas agora eu tenho que ir – disse – Minha mãe está com febre. Tchau, Paullie.
   - Tchau.
   Paullie. Que apelido tosco.
terça-feira, 19 de outubro de 2010 4 comentários

Paul cap 6


Finalmente, o capítulo 6... Desculpem a demora, e espero que gostem.

Capítulo 6

   Luna ficou durante as primeiras aulas escrevendo em um papelzinho. No recreio, ela me entregou o papel e pediu para eu preencher. No papel estava escrito:
   1 – Qual é sua cor preferida?
   2 – Qual o seu prato predileto?
   3 – Qual o seu hobbie?
   4 – Aonde você nasceu?
   5 – Animal preferido?
   Eu bufei e olhei para ela com desdém. Mesmo assim, peguei o lápis e respondi:
   1 – Cinza
   2 – Sopa de tomate
   3 – Cuidar do meu bicho de estimação
   4 – França
   5 – Pantera
   Entreguei a folha para Luna. Ela sorriu e leu:
   - Sopa de tomate?
   Eu confirmei com a cabeça. Ela deu uma risadinha.
   - Você tem um bichinho? Qual é?
   - Um diabrete.
   - Ah, entendo, é um cachorrinho encapetado, não?
   - Não, é um diabrete mesmo.
   Ela me olhou por um instante. Depois riu. Acho que ela pensou que fosse uma piada.
   - Diabretes não existem.
   Eu abaixei a cabeça e não discuti. Era bem provável que o diabrete fosse fruto da minha imaginação.
   - Nasceu na França? Quando veio para a Inglaterra?
   - Com dois anos. Minha mãe é daqui.
   - Você quase não tem sotaque.
   - Fui educado em inglês a vida inteira. Meu pai diz ser uma língua mais útil para a vida.
   Ela sorriu. Depois, olhou nos meus olhos.
   - Foi bom te conhecer, Paul.
   Eu abri a boca para dizer “ também foi bom te conhecer” , mas em vez disso, saiu:
   - Quer ir à minha casa?
   Eu arregalei os olhos, surpreso com a minha pergunta. Mas, antes de eu falar alguma coisa que a detivesse, ela respondeu, com um belo sorriso:
   - Eu adoraria.
   Isso não era legal. Era perigoso. Eu não podia deixar. Mas, quando me dei conta, estava escrevendo meu endereço e entregando a ela.
   - Certo. Apareço por lá de tarde – ela disse.
   Eu estava ferrado. Para não falar nada pior.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010 3 comentários

Paul cap 5

 Capítulo 5

Antes de dormir, repeti o mesmo ritual de sempre. Observei a rua pela janela da sala, depois subi para o meu quarto, tranquei a porta, me sentei na cama e fiquei olhando pro chão. Por horas e horas à fio. Até que, às 2 da manhã, senti sono e me deitei para dormir.
Tive um sonho estranho. Sonhei que eu era um anjo. E uma pessoa de capuz estava tentando me tirar do céu. Ela conseguiu, e me deixou na terra. Então, vi uma mulher desconhecida e, quando me dei conta, eu a estava matando. E, quando terminei de matá-la, apareceu a Luna com ódio nos olhos e me degolou. Então eu acordei.
Vesti qualquer coisa e desci para a cozinha. Peguei um pedaço de pizza na geladeira e saí de casa, sem olhar para a cara dos meus pais. Comi a pizza no caminho.
Quando cheguei na escola, me sentei numa das carteiras dos cantos do fundo. Depois que todos os alunos tinham chegado, Luna resolveu escolher a carteira. A última que sobrou. A na minha frente.
Tenho certeza que foi de propósito.
- Olá, Paul – disse ela – acho que seu humor não estava bom ontem.
Eu resmunguei algo sobre nunca estar.
- Mas creio que hoje você pode conversar como gente – disse ela, passando o dedo na carteira e cruzando as pernas.
- Não tenho nada a conversar com você.
- Claro que tem! Quais são seus gostos e sonhos? Suas preferências? Qualquer coisa!
Olhei para ela. Bufei.
- O que foi? - continuou – Não quer saber os meus gostos e sonhos?
Eu dei um sorriso antipático e respondi, contando a maior mentira de todas:
- Não tenho o menor interesse na sua vida.
- Humpf, isso não é educado.
Ela calou a boca por um momento. Mas antes que eu pudesse respirar aliviado, ela voltou a falar:
- Ah, vai, me conta... Qual é a sua cor preferida? Ou seu prato preferido? Ou melhor... - ela deu uma piscadela – de que garota você gosta aqui na sala?
Eu senti minha pele branca ganhar uma corzinha diante dessa pergunta. Ela riu.
- Ah, vai, conta! Só pra mim. Não sou fofoqueira.
Eu certamente não ia me ajoelhar na frente dela, dizer que estou tremendamente apaixonado e pedi-la em casamento, como eu queria fazer. Por isso, simplesmente falei:
- Não gosto de nenhuma garota aqui.
Ela me olhou por um momento, depois deu um sorriso amarelo e uma risadinha:
- Tudo bem, não tenho nada contra sua opção sexual, e...
- Não! Você entendeu errado! Não gosto de nenhuma garota e de nenhum garoto também.
Ela riu. Uma risada leve e contagiante. Não consegui evitar de abrir um sorrisinho.
- Você tem um sorriso bonito – disse ela.
Eu fechei a cara. Ela suspirou. O sinal tocou para a primeira aula.
domingo, 12 de setembro de 2010 5 comentários

Paul cap. 4

Capítulo 4
   Minha mãe entrou, sorridente, no quarto. Com uma bandeja. Deixou-a em cima da cama. Tinha chá e muffin. Fiz uma careta. Odeio doces. Minha mãe me deu um beijo na testa e desceu.
   Eu tomei o chá e dei os muffins pro diabrete.
   Ouvi risadinhas lá embaixo. Resolvi ir checar o que meus pais estavam fazendo. Sabe, eu não quero irmãos.
   Desci e vi meus pais abraçados, sentados no sofá. Pareciam felizes, como uma família de propaganda de peru de natal. Patético. Minha mãe deu uns beijinhos no rosto do meu pai e depois acenou para mim.
   Certamente ela tinha esquecido da briga. Como sempre.
   Minha mãe, Anita, tem forte problema de memória. Às vezes ela esquece de trancar a porta, de colocar sutiã, do próprio aniversário. Já se esqueceu de quem era quando eu tinha cinco anos. Ela está sempre avoada e com cara de idiota.
   Meu pai realmente a ama, mas perde a paciência fácil quando ela faz bobagens. Mas pelo menos ele nunca a agrediu fisicamente. Uma vez eu o vi morder o pescoço dela, mas ela parecia achar divertido. Graças a Deus, não ganhei um irmão depois.
   - Paul – disse minha mãe – Henry e eu resolvemos algo importante.
   Por favor. Não me diga que vou ter um irmão.
   - Vamos nos mudar – disse meu pai.
   Por um momento me senti aliviado. Depois percebi o que meu pai disse. E explodi:
   -O QUÊ? NÃO QUERO SAIR DAQUI!
   Subi para o meu quarto e bati a porta, deitando na cama e enfiando o travesseiro na cara.
   Minha mãe entrou no meu quarto e sentou-se do meu lado. Passou a mão no meu cabelo, deixando-os desarrumados. Meu pai não gosta quando ela faz isso.
   - Por que não quer se mudar, Paul?
   -Você sabe muito bem.
   - Por quê?
   - Por causa do Johnson, sua retardada.
   Ela ficou em silêncio, vasculhando a memória. Finalmente, seus olhos se iluminaram ao lembrar.
   - Ah sim, Johnson, o diabrete!
   - Ele precisa de mim.
   - Olha, querido, se ele sobreviveu tanto tempo até você encontra-lo, com certeza vai sobreviver até o próximo inquilino.
   - E se o próximo inquilino mata-lo?
   Minha mãe suspirou.
   - Tenho certeza que ele sabe se cuidar.
   Pensei por um instante. Por fim, afirmei com a cabeça. Minha mãe sorriu e saiu do quarto.

P.S.: Esqueci de comentar que o Henry é um personagem emprestado pela minha amiga Júlia Magalhães =) Sorry Ju
sexta-feira, 3 de setembro de 2010 4 comentários

Paul cap 3

Capítulo 3

   Quando finalmente acabou a aula, fui para casa.
   Moro numa casa grande, de madeira, em um bairro vazio e cinzento. Minha mãe queria se mudar, mas eu não. Sempre gostei de lá.
   Quando passei pela porta, já ouvi os berros do meu pai e o choro da minha mãe. Ele estava gritando com ela de novo. Era só eu virar as costas.
   Subi as escadas e o vi, em pé, gritando, e ela, ajoelhada, aos prantos. Uma xícara de café estava quebrada entre eles, e ela recolhia os cacos com as mãos. Sempre tão desastrada.
   - Pai – eu disse – Quantas vezes tenho que dizer que só eu posso fazer a mamãe chorar aqui?
   Meu pai me lançou um olhar raivoso. Minha mãe me olhou com olhos brilhantes.
   - Ah, meu bebê – disse ela, sorrindo.
   Ela se arrastou até mim e abraçou minhas pernas.
   - Muito obrigada por me defender, Paul – disse ela.
   Eu me abaixei e dei um tapa no rosto dela. Eu realmente não estava com humor para carinhos. Ela se deitou no chão e ficou chorando. Eu fui pro meu quarto.
   Meu quarto era pequeno, sem janelas, feito de madeira velha, que rangia a meus pés. A cama também era antiga. Mas o mais legal era o armário.
   Dentro dele tinha uma gaveta aonde morava um diabrete. Ele ficava preso lá, e eu podia deixar comida e brinquedos para ele. Meu pai não sabe quanto a ele, mas minha mãe sim. Eu sempre conto as coisas pra ela.
   Mesmo ela esquecendo na maioria das vezes.
   Eu me deitei na cama. Fiquei encarando o teto. Minha mãe me chamou para almoçar entre soluços.
   Desci para a sala. Havia uma sopa na mesa. Eu olhei para ela. Depois provei uma colher. Só então percebi o tanto que eu estava com fome. Engoli o resto da sopa. Depois voltei pro meu quarto, levando um pedaço de cenoura. Abri a gaveta do meu armário e dei a cenoura pro diabrete. Ele lambeu a cenoura, depois enfiou tudo pela goela e arrotou. Meu quarto ficou fedendo. Abri a porta pra entrar um ventinho.
   Depois me sentei na cama e fiquei olhando as digitais dos meus dedos.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010 2 comentários

Paul cap 2

O capítulo. 2, finalmente!!! Desculpem a demora, espero que gostem.

Capítulo 2

   Na hora do lanche, fiquei na sala. Com certeza, a garota desceria pro pátio com as amigas e eu ia ficar lá sozinho. Mas, quando as amigas dela a chamaram para descer, ela quis ficar na sala. Eu me encolhi. Ela estava andando na minha direção. Cerrei os dentes. Ela parou ao meu lado. Eu podia sentir o cheiro dela.

   - Qual é o seu nome? – ouvi.

   Será que eu devia sair correndo? Correr antes de oferecer algum perigo a ela? Em vez disso, olhei de lado para ela e respondi:

   - Paul.

   Olhei de volta para a carteira. Agora que ela tinha visto minhas íris negras como um buraco, certamente sairia correndo.

   Mas não. Ela simplesmente falou:

    - Meu nome é Luna.

   Eu fiquei calado. Eu podia falar sobre como seu nome combinava com ela. Como combinava com sua voz suave. Com seu rosto lindo. Com seus olhos brilhantes.

   Mas, em vez disso, fiquei calado. É o melhor que eu faço.

   - Você não é de falar muito, né? - perguntou ela.

   Continuei calado.

   - Qual é o seu problema? - ela parecia estressada agora.

   Eu olhei para ela. Eu podia dizer o problema. Podia dizer que eu era perigoso. Podia dizer que era melhor ela se manter longe. Eu podia dizer também o quanto ela era maravilhosa. Mas, para quê? Fiquei calado. Eu me levantei. Percebi que ela era bem mais baixa que eu. Eu precisava me acalmar. Ela estava indefesa ali na sala.

   Fui para o fundo da sala e me sentei no chão. Tirei meu caderninho cinza do bolso e o abri. Comecei a escrever um poema. Precisava me acalmar. Precisava.

   Depois que escrevi o poema, guardei o caderno de volta e Luna me observava, assustada. Cheguei perto dela e falei:

   - Por favor, não se meta na minha vida.

   Ela não se moveu. Só ficou me encarando, incrédula.

   Eu me sentei na cadeira.

   As vozes vieram.

   - “Mate-a”, elas diziam. “Vamos, levante-se e arranque a cabeça dela”.

   Eu gemi e tapei os ouvidos. Mas de nada adiantava. Elas ainda estavam lá. Eu encostei o rosto na mesa.

   As vozes passaram.

   Olhei em volta. Felizmente, Luna se assustou o suficiente para fugir de mim e descer para o pátio. Ótimo.

domingo, 15 de agosto de 2010 4 comentários

Paul cap 1

Finalmente postei alguma coisa. Me desculpem a demora, mas eu estou com lepra mental bloqueio criativo. Então resolvi postar um texto já pronto, que só faltava digitar. Espero que gostem.
P.S.:  Não, o Paul não é vampiro.
 
Paul
Capítulo 1
Depois de anos sendo da mesma série, finalmente estávamos na mesma sala. E no último ano do Ensino Médio. Eu nunca havia falado com ela. Só a conhecia de vista. Melhor para ela assim, não falar comigo. Bem mais seguro. E agora eu podia observá-la direito.
Percebi que ela me olhava. Certamente estava olhando para a minha pele absurdamente pálida. Ou para o meu cabelo preto, perfeitamente alinhado com uma franja enorme emoldurando um lado do rosto. Ou, quem sabe, está olhando para minhas olheiras fortes e negras. Com certeza estava me achando estranho só de me ver. É o melhor que ela faz. Me achar estranho, medonho e ir pra bem, bem longe.
Eu olhei pra ela. Ela tinha pele rosada e saudável, cabelos lisos e castanho-claros, com uma franjinha na testa, olhos marrons levemente avermelhados, parecendo sangue misturado na lama. Ela estava com olhos arregalados. Com medo de mim, presumo. A boca dela estava meio aberta. Ela passou os dedos na bochecha e deu um sorrisinho, corando. Ela era linda.
Linda demais. Tirei os olhos dela e fiquei olhando pra mesa. Não queria pensar nela. Não podia acabar bem. Pelo menos não para ela. Olhei minhas mãos. Imaginei minhas mãos apertando o pescoço dela, sufocando-a. Sorri. Então sacudi a cabeça. Não. Controle-se. Esqueça que ela existe. Esqueça.

quarta-feira, 5 de maio de 2010 4 comentários

Lilith cap. 2

Capítulo 2

   - Depois daquele dia em que meu rosto ficou queimado, muita coisa mudou - disse Lilith - Uma semana depois, meu pai morreu. Ele tinha o melhor emprego, e minha mãe ganhava pouquíssimo. Quase nada por mês. Minhas irmãs não tinham idade para trabalhar, e minha mãe resolveu achar outro emprego. Mas não obteve sucesso. Mais tarde, minhas irmãs se ofereceram para trabalhar também. Minha mãe não quis deixar. Só depois que não tínhamos mais como comprar comida ela permitiu. Mas, então, minha mãe foi despedida, pois estava muito sonolenta no trabalho, afinal quase não dormia por causa da dívidas. Depois de um ano sem encontrar emprego, achou um como lavador de pratos em um bar pobre e vazio. Depois, tentou achar um emprego para a minha irmã mais nova, que mesmo assim é mais velha que eu, Minie. Mas nenhum a aceita por ser nova demais. Por isso, minha mãe está querendo obrigar Minie a se prostituir. E a próxima será eu.
   - Sua situação é considerável - disse o demônio - Mesmo eu já tendo visto piores. Quer que eu a ajude?
   - Sim.
   - Sabe que tudo tem um preço, não?
   - Sei. Não me importo.
   - Muito bem então. Temos um trato.
   Dizendo isso, o demônio levou a mão à boca e, com os caninos, furou um pouco o próprio dedo. Uma gota de um líquido grosso e mais escuro do que o sangue comum saiu do seu dedo. Estendeu o dedo para Lilith. Lilith encostou o próprio dedo já furado no dedo dele. Os olhos do demônio faiscaram por um momento, e um trovão desceu do céu, causando estrondo.
   - Muito bem - falou o demônio - Sua mãe tem alguma coisa contra você namorar?
   - Não, na verdade ela ficaria contente. Ter um namorado significaria eu sair para lanchar de graça. Ela com certeza adoraria.
   - Ótimo.
   O demônio foi cercado por uma neblina negra, que depois se afastou, revelando, no lugar do demônio, um garoto aparentemente humano, bonito, de cabelos loiro-escuros e olhos azuis claros. Ele sorriu lindamente.
   - Agora vamos fazer de conta que eu sou seu namorado. Vou me esconder nos fundos da sua casa, e de manhã vou fazer uma visitinha. Me apresente para a sua família, certo?
   - Tudo bem. Venha comigo.
   Os dois foram para a casa de Lilith. Uma casa pequena, caindo aos pedaços. Com um boa noite, o demônio se escondeu numa lata de lixo por perto. Lilith entrou no próprio quarto furtivamente pela janela e se deitou, para aproveitar as poucas horas de sono restantes.
quinta-feira, 29 de abril de 2010 3 comentários

Reinado

Um mini-conto de quatro frases que fiz durante o recreio hoje:

Reinado

No castelo onde eu trabalhava, vivia um rei, uma rainha que o amava, e seus dois filhos gêmeos.
Certa noite, gritos no castelo.
A rainha foi encontrada morta, assim como seus filhos.
Vida longa ao rei louco.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010 4 comentários

Lilith Capítulo 1

Esta é uma história maior que estou fazendo, ainda não sei se vou querer postar ela inteira aqui no blog, mas, de qualquer jeito, aí vai o primeiro capítulo para dar um gostinho:

   O céu estava negro com a noite, apenas a lua diminuia sua escuridão. Havia densa neblina em toda a cidade. Ventava forte, e os ventos arrepiavam as folhas das árvores por onde passava.
   A garota corria pelas ruas gélidas, encoberta pela sombra. Usava uma grande capa preta que a esquentava e escondia sua identidade. Arfava.
   Então chegou a uma pequena estrada de asfalto. Com pequena não estou exagerando. Ela não chegava a 10 metros. Ia a um enorme portão de ferro, trancado. A garota passou pela fresta embaixo do muro de cimento e entrou no cemitério.
   Era assustador e belo ao mesmo tempo: centenas de lápides e túmulos de mármore branco cintilavam à luz da lua, o orvalho formava um tapete brilhante na grama. A garota observou, maravilhada, os anjos e cruzes ao seu redor. Deslumbrante. Mas não era isso que a interessava.
   Correu na estrada de asfalto que cruzava o cemitério. Passou pela bela igreja, também de mármore branco. Até chegar ao grande portão enferrujado do outro lado do cemitério. Um portão antigo, de ferro negro. Ela sabia que ele estava aberto. Nunca o trancavam. Abriu-o um pouco e entrou.
   Se encontrava agora no antigo cemitério da cidade. Abandonado dezenas de anos atrás por apresentar perigo místico. E era isso o que ela procurava.
   Andou entre as lápides de pedra, rachadas com o tempo. Observou as esculturas de caveiras, demônios e capas segurando enormes foices. Mas não sentia medo.
   Chegou então embaixo de uma enorme árvore morta, que jazia ali há anos mas jamais caíra. Em sua sombra, havia uma pequena pedra incrustada ao chão, uma pedra de mármore negro, com o desenho de uma cruz ao contrário e três dígitos: 666.
   Ela tirou a capa que estava usando. Era uma garota jovem, alta e magra, de face redonda. Seu cabelo negro, liso e comprido tampava metade de seu rosto. O seu olho vísivel era castanho-claro.
   Ela abriu um bolso que ficava dentro da capa. De lá, tirou uma faca, um cantil de água, uma caixa de fósforos, um pedaço de papel, uma semente e um balão, que não estava cheio.
   Então ela começou a agir: Primeiro, despejou a água do cantil na grama na diagonal direita acima da lápide. Depois, riscou um fósforo e botou fogo no papel, colocando-o na diagonal esquerda abaixo da lápide. Então, enterrou a semente na diagonal direita abaixo da lápide. Encheu o balão com ar e o colocou na diagonal esquerda acima da lápide.
   Por fim, pegou a faca e cortou a palma de sua própria mão esquerda. Passou um dedo no sangue, e passou o sangue acima dos escritos na lápide (nunca tente isso em casa).
   Se levantou e esperou.
   Logo, as nuvens tamparam também a lua, deixando tudo completamente escuro. O fogo do papel se alastrou pela grama e pela terra, formando o desenho perfeito de uma estrela no chão. Um raio caiu do céu, atingindo a lápide e a rachando no meio. Um tornado negro saiu de dentro da rachadura. Sua velocidade foi diminuindo, até que era apenas uma sombra negra, que circulava a garota que observava tudo paralisada. A sombra parou em cima da lápide rachada, e começou a tomar forma.
   Postado na frente da garota, agora se achava um rapaz branco como um morto, com cabelos negros e rebeldes. Tinha os olhos completamente vermelhos rodeados de olheiras negras. Sorriu, mostrando uma fileira de dentes brancos e um par de caninos enormes e pretos. A criatura tinha chifres, não muito longos, mas afiadíssimos. Era alto e forte, usava roupas antigas e surradas. Movimentou os dedos como se quisesse pegar o pescoço da garota e torcê-lo. Um pouco acima de seu traseiro, saía uma cauda em forma de flecha.
   - Quem ousa? - perguntou ele.
   - E-eu - gaguejou ela - Meu nome é Lilith.
   - Ah, sim - disse ele - Uma velha amiga minha tinha esse nome também. Sua mãe tem ótimo gosto.
   Ele abriu um sorriso tenebroso.
   - Apresente-se - ordenou Lilith.
   - Claro - disse ele - Meu nome é Ferdinand.
   - Eu sei que você tem várias formas, demônio. Pare de me assustar.
   Ele suspirou:
   - Pensei que fosse novata.
   - E sou. Mas me informei bastante antes. Ordeno que se transforme imediatamente.
   O demônio se dissipou em uma nuvem negra novamente e voltou a se materializar. Agora ele estava pálido, mas não tanto. Ainda tinha seus dentes, chifres e cauda. Seus olhos já não eram completamente vermelhos, apenas a íris continuou desta cor. E suas roupas mudaram, se tornando mais modernas e bem cuidadas.
   O demônio encarou o rosto de Lilith.
   - Por que tampa o rosto com seus cabelos? - perguntou ele - Você é emo?
   - Não! - ela disse - Só tenho vergonha.
   - Você não é feia. Tem algo errado com este lado de seu rosto?
   - Sim, tem.
   - O quê?
   - Não importa a você, demônio.
   - Talvez eu possa ajudar.
   Ela pensou por um instante. Seus olhos brilharam de esperança.
   - Está bem - disse, afinal.
   Afastou os cabelos do rosto com um movimento da mão. O demônio ergueu as sobrancelhas, surpreso. Toda aquela metade do rosto de Lilith estava completamente deformada e ferida. Não tinha a sobrancelha, a narina era levemente mais aberta que a outra e a boca era repuxada para baixo. Em sua bochecha e em sua testa haviam buracos que mostravam carne viva. Mas o mais surpreendente era seu olho. Não era um buraco, nem estava queimado. Ele era completamente vermelho.
   - O que aconteceu? - perguntou o demônio.
   - Queimadura - respondeu Lilith - Fui queimada quando ainda era um bebê.
   - Conte-me.
   Ela suspirou e começou a contar:
   Ela era apenas uma criança de um ano e poucos meses quando seus pais saíram para o trabalho, deixando-a sozinha com seus cinco irmãos mais velhos, Lara, Teresa, Helio, Minie e Rian. Lara e Teresa eram gêmeas de 15 anos. Ambas eram um tanto quanto rebeldes, e queriam passear no cemitério aquela noite, para aproveitar que os pais não estavam lá. Queriam deixar Lilith em casa, mas como Helio não queria cuidar de Lilith e os outros irmãos eram muito novos para isso, resolveram levá-la com elas. Então Lara e Teresa chamaram seus amigos e foram todos juntos para o cemitério antigo. Riram e beberam por um bom tempo. Um de seus amigos deram a idéia de invocar demônios. Todos riram e concordaram. Não acreditavam que aquilo existia. Assim, fizeram um ritual simples, e conseguiram invocar um demônio não muito experiente. Ficaram aterrorizados. Teresa se virou para o demônio e o ofendeu com palavras rudes sobre sua aparência. O demônio se enfureceu. Encheu o peito de ar e soltou labaredas de fogo nos adolescentes. Maioria conseguiu fugir em segurança, mas Teresa, que estava com Lilith no colo, foi seriamente atingida, e Lilith, apenas naquela metade do rosto. Teresa deixou ela cair no chão, pôs as mãos no rosto e caiu de joelhos. Lara rapidamente pegou Lilith no colo. Queria ajudar Teresa, mas esta estava sendo consumida pelas chamas. Assim, saiu correndo com Lilith no colo, Lilith chorando como nunca na vida, enquanto sentia a pele arder com a queimadura. Tinha os olhos completamente fechados pela dor. Quanto a Teresa, esta nunca mais foi vista.
   - Então você é cega de um olho? - perguntou o demônio a Lilith.
   - Não - disse Lilith - Pelo contrário. Agora posso ver.
   - Como assim?
   - Posso ver criaturas mágicas. Fadas e diabretes. No começo foi árduo aguentá-los e eu tinha medo. Mas, com o tempo, me acostumei. Considero-os quase amigos hoje.
   - Aquele demônio te deu a Visão... Isto é raro. E valioso.
   - Sim. Mas então, como pode me ajudar sobre a queimadura?
   - Não posso.
   A esperança nos olhos de Lilith sumiu:
   - Como assim?
   - Eu até poderia se fosse uma queimadura comum, por um incêndio de causas normais ou coisas assim. Mas como é o fogo de um demônio, nada posso fazer.
   Lilith ficou em silêncio, encarando o chão.
   - Realmente sinto muito - disse o demônio, em um tom quase convincente - Mas então, por que me chamou afinal?
   - Eu queria pedir um favor a você - respondeu ela.
   - Um favor? E qual seria?
   - Bem, é o seguinte...

O que acharam?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 2 comentários

O Casamento de Noa

Aqui está outra história dos Contos de Sangue:


O Casamento de Noa




Era uma vez uma mulher chamada Noa Nogara. Ela tinha cabelos negros, pele morena e olhos castanho-escuros. Estava muito emocionada. Era o dia de seu casamento! Iria se casar com o amor de sua vida, Fedato Fantini. Ele tinha pele clara, cabelo cor de caramelo e olhos verdes.
Noa nasceu na Arábia, mas se mudou para a Itália aos cinco anos. E foi lá que conheceu Fedato, aos doze anos. Começaram a namorar aos treze. Como se amavam tanto, resolveram se casar com dezoito anos. E lá estavam eles, em 1990. Ela ia, de limusine, para a igreja. Usava um longo vestido rendado, completamente branco, e seu rosto estava coberto com um véu tão fino que parecia feito de neve.
Chegou na igreja. A marcha nupcial começou e ela entrou pela porta, passando lentamente pelo tapete que ia até o altar.
E lá estava Fedato, sorrindo para ela. Noa sorriu para ele também. Logo mudaria de Noa Nogara para Noa Fantini.
Se postou no altar, ao lado de Fedato. Olhou pra o padre. Ele olhava para os dois, sorrindo. Mas não era um sorriso normal. Algo brilhava nos olhos do padre. Algo escuro e terrível. Noa virou a cabeça para os lados e não viu ninguém mais perceber a expressão do padre. Nem mesmo Fedato.
Quando o sermão terminou, algo aconteceu. A igreja se encheu de sombras. A cruz se virou de cabeça para baixo. Todos gritaram. As janelas estouraram.
Noa suava frio. Viu então uma sombra vindo em sua direção. A sombra a atacou, e entrou nela, como se estivesse sendo absorvida pelo corpo dela. Noa sentiu uma dor insuportável e tombou no chão, contorcendo-se.
Os convidados olharam, desesperados. "Vamos embora daqui!", gritou um deles. Os convidados se levantaram e correram em direção à porta, mas esta se trancou. Os convidados se amontoaram em cima da porta, batendo nela e gritando.
Noa parou de se contorcer. Respirou fundo, os olhos fechados. Então se levantou vagarosamente, jogou o véu que estava tampando seu rosto para trás com os braços e abriu os olhos, olhando para Fedato.
Os olhos de Noa estavam vermelho-sangue. Não era mais a mesma mulher. Estava possuída. Ela sorriu maleficamente para Fedato. O padre soltou uma gargalhada, e pegou, escondido embaixo de uma mesa, um machado. Jogou para Noa, que o catou no ar automaticamente, sem tirar os olhos do Fedato, como se tivesse treinado esse movimento antes. O padre, então, bambeou e caiu no chão, desmaiado. De dentro dele emergiu uma sombra, como a que tinha entrado em Noa.
"Agora você vai morrer!", disse Noa para Fedato, sua voz alterada, grossa e rouca.
Noa deu um golpe do machado em Fedato, mas ele se desviou e saiu correndo. Foi até a porta, esmurrando-a junto com os outros convidados.
Noa correu até a porta, tentou acertar Fedato com um golpe, mas errou a pontaria e acertou uma senhora, degolando-a.
Fedato fugiu de perto da porta e escalou um banco. Deu um salto e se agarrou em uma das janelas quebradas, resgando a pele da palma de sua mão. Mas, mesmo assim, ele subiu pela janela e pulou para o jardim.
Noa rugiu furiosa. Com o machado, abriu espaço entre a multidão na frente da porta, e levantou a mão. A porta se abriu violentamente a seu comando. Ela saiu correndo porta afora, e avistou Fedato correndo na rua. Foi atrás dele. Não havia quase ninguém na rua. Correram metros e metros. Fedato tentava despistá-la, virando esquinas, mas Noa sempre conseguia encontrá-lo.
Por fim, ele virou uma esquina escura, e correu até o final da rua, mas se arrependeu por isso. Era um beco sem saída. Virou-se e viu Noa se aproximando dele, sorrindo ameaçadoramente. Fedato suava frio, e por fim desistiu de lutar contra a morte. Caiu de joelhos. Noa golpeou-o no ombro. Fedato berrou de dor e sangue espirrou para todos os lados, inclusive no vestido de Noa, antes branco como a neve. Depois Noa golpeou Fedato mais dez vezes, na perna e na barriga, e por fim golpeou-o no meio da cabeça. Fedato tombou no chão, morto.
Noa sorriu, e saiu do beco. Desde esse dia, procura homens belos e talentosos, para matá-los na hora do casamento.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 5 comentários

A Menina das Bonecas

Esse é um pequeno conto que fiz há mais tempo, que postei a pedidos (para ser mais exata, foi o Felipe que pediu). É um conto de terror, de um projeto apenas com histórias medonhas, chamado Contos de Sangue, então não se enganem pelo nome feliz dessa historinha. Aí vai:

A Menina das Bonecas

Era uma vez uma menina chamada Bonita Boettcher. Era morena e tinha os olhos claros. Ela morava em Arta, uma cidade ao leste das Ilhas Baleares, na Espanha.
Adorava bonecas. Tinha uma coleção inteira delas. Mas suas bonecas eram diferentes. Eram montadas pela própria Bonita.
Bonita, ao ganhar as bonecas, cortava seus braços, suas pernas e sua cabeça fora. Se fosse possível, tirava também os olhos. Então ela costurava os braços, os olhos e as pernas em bonecas diferentes, montando, assim, bonecas completamente novas e originais.
Bonita tinha essa mania desde os três anos. Sua mãe, a sra. Boettcher, se orgulhava do talento de costura da filha. Seu pai a achava muito nova para mexer com agulhas, e tinha medo dela se machucar. Mas Bonita quase não se espetava com a agulha, e quando isso ocorria, eram espetadas muito leves.
Em 1999, quando Bonita tinha dez anos, olhou suas bonecas. Haviam algumas muito velhas e surradas. Outras ainda estavam novas, mas ela precisava de algo novo. Queria bonecas diferentes. Mais reais.
No dia primeiro de maio, feriado de Dia do Trabalho, a sra. Boettcher resolveu convidar umas primas mais novas de Bonita para passar o dia na casa deles. Bonita ficou feliz: adorava mostrar suas bonecas para as pessoas.
Logo as primas chegaram. Eram três: Vicki, bem branca, de cabelos negros e olhos como os de Bonita; Victorine, muito parecida com Vicki, mas com olhos escuros; e Violet, que se parecia ainda mais com Vicki, mas era mais magra.
Bonita ficou animada e levou as meninas para o quarto. Mostrou a elas as bonecas. As três quiseram logo brincar com elas.
Vicki viu que Bonita as observava enquanto brincava. Olhava para elas, juntando as sombrancelhas e franzindo o cenho em uma expressão pensativa, a franja reta cobrindo sua testa. Então Bonita saiu do quarto.
Momentos depois, Bonita voltou ao quarto, escondendo algo atrás de si. Entrou no quarto, trancou a porta e escondeu a chave no bolso. As garotas se assutaram ao ver que o que Bonita tinha na mão era uma peixeira.
“O que você está fazendo com a faca na mão?”, perguntou Violet. “Minha mãe sempre diz que brincar com facas e outras coisas pontiagudas é perigoso!”
“Não se preocupe”, disse Bonita, com um sorriso travesso. “Vou apenas fazer bonecas novas.”
“Você usa essa peixeira para desmontar suas bonecas?”, perguntou Victorine.
“Na verdade, costumo usar minha tesourinha sem ponta. Mas dessa vez vai ser diferente.”
Bonita avançou em Victorine e, com um movimento rápido, cortou fora seu braço direito com a peixeira. Sangue esguichou para todos os lados. As três primas gritaram. Bonita, então, degolou Violet. As outras duas avançaram para a porta, mas estava trancada e a chave estava com bonita. Bonita avançou para elas, degolando-as também. Observou as três primas mortas e sorriu maleficamente. Então desmembrou-as e arrancou seus olhos com uma colher de brinquedo. Olhou para as próprias mãos, completamente sujas de sangue. Limpou-as no vestido. Então pegou sua agulha e suas linhas e começou a costurar tranquilamente os membros sanguinolentos nos corpos. Logo estava pronta sua primeira “obra-prima”. Só faltavam os olhos.
A sra. Boettcher entrou no quarto.
Logo que viu Bonita, sentada em uma poça de sangue, enfiando um globo ocular em uma órbita vazia no rosto coberto de sangue de sua prima Vicki, a sra. Boettcher soltou um berro.
“Que tal minha nova boneca, mãe?”, perguntou Bonita, orgulhosa.
A mãe não respondeu. Apenas desmaiou.
Bonita está à solta, e ainda tem a mesma mania. Cuidado: você pode virar sua próxima boneca.

O que acharam?
Beijos
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010 3 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 13

 Aproveitem bem, pois este é o último capítulo. Espero que gostem:
 
Capítulo 13
 
   Theodora sentia toda a pele ardendo. Seus olhos também ardiam, e ela percebeu que eles derretiam como cera. Estava completamente cega agora. Caiu de joelhos. Sentiu cheiro de queimado, e fumaça começou a sair de sua pele. Não demorou muito e estava ardendo em chamas. Em questão de segundos, Theodora se transformou em cinzas.
   Eleanor suspirou e pegou as cinzas de Theodora com uma pazinha, depois guardou-as em um pote.
   - Vou voltar para onde nascemos, na Espanha, e enterrar este pote.
   - Claro - disse Leonard - Mas não hoje, certo?
   - Não, precisamos dormir. Pode dormir comigo se quiser. Não tenho outro caixão, então vamos ter que nos apertar.
   - Tudo bem. Na verdade, pode ser até divertido.
   Ela riu.
   - Vamos - disse ela, e os dois entraram no alçapão que dava para o porão.
  
   Na noite seguinte, quando Leonard acordou, Eleanor já não estava no caixão. Ele se levantou preguiçoso e olhou para o lado. Lá estava Eleanor, ajoelhada na frente do armário, colocando roupas em uma mala.
   - O que está fazendo? - perguntou Leonard.
   - Arrumando minhas malas, obviamente - respondeu ela.
   - Vai embora?
   - Vou - ela pôs um último corpete na mala e a fechou, ficando de pé - Já fiquei muito tempo por aqui. Você devia ir também, ou seus conhecidos vão começar a estranhar você.
   - Vou com você então, para onde você for. Eu te amo, Eleanor.
   Ela riu e acariciou o rosto de Leonard. Depois disse:
   - Ah, Leo... Eu também te amo. Mas sou uma vampira. Tenho que viver sozinha. Você também, agora que é como eu.
   - Mas...
   - Acredite, é o melhor para nós dois. Eu sigo o meu caminho e você segue o seu.
   Ele ficou calado por um momento, observando o chão, desapontado. Então ergueu o olhar, sorriu e disse:
   - Sei que vamos nos ver de novo, Eleanor. Tenho certeza.
   Ela sorriu:
   - Espero que sim.
   Leonard fechou os olhos e se inclinou para um último beijo, mas este não veio. Ouviu um barulho de um alçapão se abrindo. Ele abriu os olhos e viu que ela já havia ido embora. Suspirou e se foi também. Ainda tinha a eternidade pela frente.

   Chegamos ao fim desta história. Calma, ainda vou postar mais, mas Tinta Vermelha acaba aí. O que acharam?

Beijos
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 2 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 12

Capítulo 12

   - Prima? - perguntou Leonard - Talvez isso explique a semelhança.
   - Sim - disse Eleanor - Essa é minha prima de 16 anos. Pelo menos ela tinha 16 anos quando foi transformada. Estávamos passeando juntas pela rua à noite, quando fomos atacadas por um vampiro. Ele transformou nós duas. Nos apaixonamos completamente por ele depois que nos transformamos. Tivemos brigas horríveis por ele. E depois descobrimos que ele estava nos usando para conseguir dinheiro. Depois que ele arranjou o dinheiro que precisava para sair do país, ele nos abandonou. Mesmo assim, a relação entre nós duas não melhorou muito. Sempre fomos competitivas, desde humanas. Mas, claro, não o bastante para querer matar uma a outra. Éramos amigas e rivais ao mesmo tempo. Mas, depois que nos transformamos, não restou amizade nenhuma.
   - E agora somos somente inimigas - completou Theodora - Nem a considero como prima mais. Mas agora, vamos parar de bater papo e fazer algo útil. Mate-a, Leonard.
   Leonard se virou para Eleanor:
   - Eleanor, você matou minha mãe e eu vou me vingar. Quero você morta!
   Eleanor suspirou:
   - Leonard, eu não matei sua mãe.
   - MENTIROSA!
   Leonard avançou em Eleanor e rasgou sua bochecha com as unhas. Eleanor pôs a mão no ferimento, e ele logo se curou.
   - Isso doeu, sabia? - disse ela.
   - Era para doer - disse Leonard, rosnando - Eu poderia ter feito pior.
   Ele deu uma risada gélida.
   - Você definitivamente mudou, Leonard - murmurou Eleanor - Mal te reconheço. E tudo por culpa de uma pessoa.
   Eleanor se virou para Theodora e rosnou.
   - Quer brigar? - disse Theodora, em posição de ataque.
   Eleanor avançou em Theodora e tentou arrancar seu braço. Mas escorregou o braço e arrancou a manga do vestido dela. Theodora escancarou a boca e gaguejou. Depois explodiu:
   - SUA LOUCA! EU COMPREI ESSE VESTIDO AINDA ESTA NOITE!
   - Com que dinheiro? - perguntou Eleanor.
   - COM O QUE EU ROUBEI DO LE... - Theodora se calou - Não é da sua conta onde arranjo dinheiro.
   - Ah, vamos - provocou Eleanor - Conte pra gente de quem você roubou dinheiro. Tenho certeza que o Leo adoraria saber.
   - NÃO É DA SUA CONTA!
   Theodora arfou e se virou de costas.
   - Está escravizando o Leo, não é? - perguntou Eleanor - Está usando-o como aquele que nos transformou fez conosco. É bem a sua cara. Fiquei sabendo que fez muito disso desde a última vez que nos vimos. Os usa até enjoar deles, depois toma o sangue deles, certo?
   - Não devo dar satisfações da minha vida para VOCÊ! - disse Theodora, raivosa. Se virou para o Leonard - Venha, meu amor. Você se vinga outro dia.
   - Não - disse Leonard - Quero descobrir mais sobre você.
   Theodora apertou os olhos e disse para Eleanor:
   - Sabe, você devia agradecer a mim por ter se casado com o Leonard.
   - Por que eu deveria? - perguntou Eleanor.
   - POR QUE, SE EU NÃO TIVESSE MATADO A IDIOTA DA MÃE DO LEONARD, ELE NÃO IA QUERER ADIANTAR O CASAMENTO E...
   Ela se calou e mordeu os lábios. Eleanor sorriu para ela, satisfeita.
   - Você o quê? - perguntou Leonard, incrédulo - Foi VOCÊ quem matou minha mãe?
   Theodora olhava para o chão, muda. Mas então ergueu o queixo e enfrentou Leonard:
   - Sim, fui eu. Eu matei sua mãe sim. Além disso, eu estava te escravizando. Eu fiz você se apaixonar por mim para fazer tudo o que eu pedisse. E eu nunca te amei, Leonard. Nem um pouquinho que fosse.
   Leonard avançou em Theodora, apertando o pescoço dela com as mãos.
   - O que vai fazer, Leo? - perguntou ela - Me matar? Sabe que não pode me matar me enforcando, não é? Você não pode fazer nada contra mim. É um vampiro, mas ainda é novo e fraco. Vai mesmo me enfrentar?
   Leonard apertou os lábios. Então percebeu uma coisa. Pela janela, entrava um fio de luz do sol. Ele sorriu e disse:
   - Quer saber? Pode ir, Theodora. Vá embora.
   Ele largou o pescoço de Theodora, que se levantou e riu histericamente.
   - Te vejo mais tarde, meu amor - ela disse.
   Theodora correu até a porta e a escancarou com um sorriso de vitória. Mas seu sorriso se apagou ao ser inundada pelo sol.
domingo, 31 de janeiro de 2010 3 comentários

Tinta Vermelha - Cap. 11

Capítulo 11

   Eleanor acabava de chegar em casa depois de seu jantar de sempre. Planejava arrumar um pouco a casa, pelo menos tirar as teias de aranha dos cantos das paredes. Mas, antes que chegasse ao depósito para pegar um espanador, ouviu um barulho e se virou. Um homem entrava em sua casa pela janela. Ela não o reconheceu só de olhar. Ele era alto e forte, branco, bonito, usava trajes antigos. Certamente um vampiro. Observou-o melhor. Tinha cabelos castanhos sedosos, que formavam um topete encantador. Sorriu para ela com seus lábios finos e macios, e mostrou um par de caninos pontiagudos. Ela então olhou para seus olhos. Eram penetrantes, de uma cor azul esverdeada. Eleanor reparou no formato do rosto do rapaz, o seu nariz fino, suas bochechas que ela havia acariciado tantas vezes, e finalmente o reconheceu. Leonard. Eleanor sentiu o próprio coração frio acelerar e se aquecer ao vê-lo duas vezes mais lindo que antes.
   - Leonard? - disse ela, sorrindo - Você está vivo? Que ótimo. Sabia que você ficou muito mais bonito como vampiro?
   Ele não respondeu. Apenas se aproximou dela. Pegou-a pelos braços e a empurrou para a parede, prendendo-a lá e se aproximando de seu rosto. A expressão de Leonard, então, se franziu em uma de puro ódio. Eleanor arregalou os olhos. Nunca o vira assim. Ele rosnou e falou, entredentes:
   - Você bebeu meu sangue. Agora eu vou beber o SEU.
   Dizendo isso, ele avançou no pescoço dela e a mordeu. Ela sentiu os dentes de Leonard penetrarem em sua pele, suaves e gentis como um beijo. Ela sorriu, o abraçou e o mordeu de volta.
   Ele sugava o sangue dela, e ela sugava de volta, em uma troca sem fim. Fecharam os olhos. Não tinham noção do tempo. Continuariam naquele círculo vicioso para toda a eternidade, se não fossem interrompidos por uma voz que Eleanor reconheceria em qualquer lugar.
   - E então, Leonard? Ainda não a matou? - perguntou a voz suave que Eleanor tanto odiava.
   Leonard soltou Eleanor, que olhou para a garota, que estava, como sempre, com sua expressão convencida. Não demorou muito para Eleanor reconhecê-la. Havia décadas que não via aquelas sobrancelhas curvadas para ela, mas mesmo assim ela se lembrava perfeitamente dela.
   - Você por aqui, Theodora? - disse, como se encontrasse uma velha amiga.
   Leonard a olhou, confuso:
   - Vocês se conhecem?
   - Claro - respondeu Eleanor - Por que eu não conheceria minha prima?
 
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